
30deJunhode2007
É saudável da minha parte quando não sinto a necessidade de escrever, pelo contrário, escrever sem nada para dizer não o é. As palavras são cada vez mais o meu sangue, e ele não pode deixar de correr pelas veias que me mantêm vivo. Por muito que não exista nada a ser dito, eu mantenho uma saudade quando a ausência persiste por mais do que o normal. Não sou, mas as minhas palavras. Só elas se pronunciam quando eu prefiro estar no silêncio.
(...) E eu continuo sem descobrir uma cura para a dor que me atinge e que apenas provem de ti. Se antes a minha parte preferida do dia era dormir, hoje eu tenho medo de fechar os olhos, ainda mais do que os abrir. Já me consegui proteger do que vejo no dia-a-dia, e essa dor é tão tolerável como qualquer outra, mas quando fecho os olhos e o meu subconsciente me faz tropeçar em ti… » 17.04.09
De todas as vezes que me afasto, que te empurro para longe de mim, eu não tenho consciência de que podes fazê-lo também. Afastas-te ou afastamo-nos e mesmo sem entender o porquê, eu penso ‘Talvez seja isto que precisamos’. Só nestes momentos em que os quilómetros que antes pareciam insignificantes se tornam na personificação da ausência é que entendo a falta que me fazes. É de estranhar que não repare nisto antes e peço desculpa por ter que te empurrar para o entender, mas no fim de contas suponho que não seja mau de todo. É sempre bom puxar-te de volta a mim e ter-te, (só) minha.
Queria ter o poder de queimar as palavras que já escrevi sobre ti, e ao fazê-lo queimar também a parte de ti que está em mim e quem sabe queimar-te para que guardes uma recordação dolorosa de mim. Depois de tudo o que fiz para que as labaredas do teu fogo fossem levadas pelo vento, parece-me justo que não seja o único em sofrimento por esta causa. Sempre fomos um, terá que ser mais uma situação mútua. Mas pelo menos sei que ainda ardes, ainda dói e espero com todas as minhas forças que o vento não te apague. Espero que queimes sem ficares
M.S.
Consegues parar de me tentar ler? Não te pedi nada. Não tentes ler as palavras que te oculto. Entendes que se as quisesse dizer, tu já as tinhas ouvido? Dá-me espaço e não apontes o dedo sobre a complicação do meu ser, porque mesmo sem me entender eu consigo fazê-lo melhor que tu. Pára, nem entendes para quem são as minhas palavras…
Todo o esforço a que me submeti eu vejo reduzido a nada. Meras salvas de palmas, segundos que não aquecem ou arrefecem impedidos por uma constante dor (física e psicológica) a que já chamei de paixão. Já nem sei o que me prende, o que me faz continuar os caminhos dolorosos que se exibem perante mim como sendo os meus. Não vejo nada que me cative, e a minha casa tornou-se numa ruína enquanto vi a minha família fugir por uma janela sem vidro.
O que mais custa é já não ter força para fugir com ela. Os meus pés continuam sangrando, pregados a este chão que tantas vezes me fez surgir e sorrir. Não sei em que te tornaste e não encontro a necessidade de te descobrir, vejo-me a sofrer e continuo este caminho quando tantas vezes me dizem para desistir. Talvez seja essa a razão, talvez não. Dizem que quem corre por gosto não cansa mas a mim a fraqueza do mesmo caminho impede-me de correr. Estou cansado. Não consigo encontrar o meu antigo escape.
Caí no erro de te recordar. Acontece sempre que me sinto fraco e sem vontade de acordar de todos os pesadelos que tenho. Procuro-te para saber que um dia esses pesadelos eram uma mera insignificância, para me lembrar da força que me davas. Hoje estou num desses dias, num dos dias em que caiu no erro de te buscar aos confins fechados de todas as minhas memórias. Naquela gaveta que não abria há tanto tempo. A maior gaveta de todas e, no entanto, a mais afastada para que não lhe consiga tocar.
Ao cair no erro de te recordar eu abri essa gaveta, e de lá saltaram turbilhões de palavras, restos de conversas, imagens dolorosas e as mais felizes de sempre e até tu investiste numa fuga. Bloqueaste a gaveta de modo a que não a conseguisse fechar e nem foi preciso. Tive vontade de te recordar. É sempre esse o meu erro. Quero que entendas que diga o que eu disser, tu continuarás a conhecer-me como a palma da tua mão e essas palavras nunca sairão desta gaveta. Por longos anos que passem, há coisas que não terminam e sempre permanecerás naquela gaveta onde o teu nome é a chave que te prende lá dentro. Não mudarei o que fui naqueles tempos, e é por isso que tu também não mudas aos olhos da minha memória. Ela exige-te desta forma, cruel, dolorosa, sorridente, nossa.
Desculpa todas as vezes que te fecho naquela gaveta longínqua e tão colossal, desculpa-me. Mas irás sempre ser tu a pessoa que me transmite a força para ser o que sempre quiseste que eu fosse. Tu.
M.S.
Fortaleci cada ponteiro daquele relógio na esperança de que ele retrocedesse quando as minhas forças fossem nulas para te encontrar. Fortaleci em vão, e perdi tanto tempo com ele como perdi contigo. Em vão, e no entanto nada disso me parece verdade. Os ponteiros mantêm-se bem fortes, seguindo em frente, seguindo o seu caminho. E na verdade eu não poderia pedir mais, nem consigo encontrar a certeza de que o meu lugar é junto ao que foste ou se quero na realidade voltar a ti.
M.S.
Uma vez disseste-me que não havias mudado, que mantinhas o mesmo rumo de outrora. Eu desculpo-te por teres envergado por outros rumos. Perdoo o vento que te soprou para longe do que fui e até o chão que te arrastou para um caminho não meu. Tudo isso eu perdoo para finalmente conseguir fazer-te cair do pedestal em que te encontras.
Uma vez disse-te que havias mudado, que o teu rumo havia sido alterado. E não me perdoaste. Agiste de forma a que a nossa colisão não se desse e viste-me partir ao som das tuas palavras doces de mais. Foi assim que caíste do teu pedestal, fazendo-me ver que tudo o que foste decompôs no chão que já não piso. E foi assim que ao inalar as tuas cinzas decrépitas eu senti o cheiro da mudança. Não tua, mas minha. A troca de lugares.
Agora eu sei que não mudaste e que o teu rumo já estava traçado para que te fosse mais fácil encontrares o teu destino, sei que as tuas palavras iludem apenas quem deseja ser iludido e a tua eternidade existe de facto em ti até que termine, enquanto dura. Foi assim que uma vez dissemos muito, e tudo isso o vento soprou para junto de ti. A mudança? Por vezes esse vento traz-te de volta ao pedestal e quando o vejo em riscos de queda eu já não salto para impedir que te partas em infinitos pedaços cortantes. Deixo-te cair e o único motivo para tristeza é a indiferença que ainda não existe perante o chão sujo que terei de limpar.
M.S.
Onde está a minha sorte quando após um dia perfeito tu surges no meu caminho? Onde se encontra ela quando esbarras contra mim a todo o momento? Não me consegues ver de longe? Terás que me perseguir eternamente para saberes onde me encontro? Não te chega quando digo que não quero conhecer o que és? Evito saber o teu paradeiro e tento ferozmente guardar o que foste para mim sem que tu imagines o quanto me dói. Isso chega-me. Não necessito que corras contra mim, fales comigo e perguntes como estou. Há muito tempo que o aprendeste a ver sem me perguntares. Para perguntas retóricas chegam as que faço a mim mesmo perguntando onde te encontras, quando nunca saíste da minha frente. É preciso ter sorte…
Fico muito tempo a pensar no que preciso de dizer, no que preciso de deitar para fora de mim. Chego sempre a ti, encontro-te em todos os cantos que preciso de esvaziar. Digo demasiadas vezes o que é necessário, e repito-me mesmo quando ainda não consegui dizer o que precisava. Desta vez refiro-te como um grau de surpresa e falar-te como se fosses só uma pessoa é difícil para mim.
És mais que uma só pessoa. És uma constante desilusão que assemelho ao de múltiplas pessoas, uma surpresa que sem querer me magoa por muito que a conheça. És tantas pessoas que ao ver-te não sei qual delas és. E depois de todo o tempo que levo investindo no que é preciso ser dito, mesmo que não o consiga dizer na realidade, vejo-me debatendo sobre a certeza de que de facto existes ou não. Por muitas pessoas que sejas, nunca conseguiste ser a que eu precisava.
M.S.
'(…) I've been here before
One day I'll wake up
And it won't hurt anymore
You caught me in a lie
I have no alibi
The words you say don't have a meaning
Cause I still don't have the reason
And you don't have the time
And it really makes me wonder
If I ever gave a fuck about you
And I...and so this is goodbye
Give me something to believe in
Cause I don't believe in you anymore
Anymore
I wonder if it even makes a difference,
It even makes a difference to try
And you told me how you're feeling
But I don't believe it's true anymore
Anymore
I wonder if it even makes a difference to cry
(Oh no)
So this is goodbye
So this is goodbye, yeah .’
A porta que fechei ainda te sente a tocar nela. Pancadas secas que indicam um desejo súbito num local mais teu que meu.
Dei-te tudo, e se hoje me pedisses voltaria a dar sem que a dúvida te roubasse o destaque. O meu mundo ou o de quem quisesses seria teu. Na verdade tudo o que tenho nunca seria o suficiente. Não para mim. Por mais que te ouvisse eu arranjaria um defeito no tom em que a tua voz não me chamou, por mais que te visse eu desviaria o olhar na esperança de te encontrar. Mereces sempre mais. Correria por ti. Iria roubar a saudade ao infinito negativo e pedir a chave ao eterno para que me pudesses prender lá. Algemar as correntes com que me prendes a não ser que peças a minha liberdade. Mudaria o que sou para ser mais como tu, e não perguntaria se ser como sou não era suficiente. Atiraria-me para o mais profundo buraco para te poder perseguir, para cair primeiro que tu, para amortecer a tua queda. Sofreria muito, tanto até. Seria alguém que sei repugnar só para que entrasses por aquela porta e me pedisses tudo de novo.
É então que recordo a razão pela qual ter trancado o que está no lado oposto ao meu e entendo que ouvir-te, ver-te, sentir-te de nada se assemelha ao passado que recordo de ti. A razão por ter trancado aquela porta és tu, o que és. A palavra para o silêncio.
M.S.
Inegável é a minha vontade de procurar-te quando não encontro quem usei para te substituir ou de te matar sempre que decides aparecer
E ainda achas que em mim eu deixei de existir? Se assim o fosse, não seria inegável a presença a que submetes estas linhas.
M.S.
Já me havia esquecido. Já tinha conseguido superar a falta que me irias fazer e quando estava contigo já conseguia ver-te como antes. Então o medo ligou-me, conseguiu pôr o meu coração a bater mais rápido do que alguma vez bateu e a tua imagem surgiu na minha memória. Uma imagem que eu inventei, a desaparecer como uma sombra a ir para a escuridão de uma luz que cega.
Não vás. Pela milésima vez, não vás. Fica comigo mais e mais. Seca as lágrimas que teimam em fugir e dá-me um sorriso teu para que tudo volte ao normal. Faz-me rir. Abranda o bater do meu coração que ele anseia por ir ter contigo. Não foi preciso muito para o medo voltasse. Para que me atacasse após os infinitos dias que levei a apagá-lo. Não me assustes assim.
(...) e se eu quisesse tu não irias queres.
Se eu quisesse tu deixarias de existir e deixarias de comandar a singela existência da minha pessoa que agora não quer ser quem és. Se eu quisesse ainda hoje terias um lugar perto do meu, vislumbrando a nossa sombra tão escura como o que deixou de ser. Se eu quisesse deixaria de o querer porque nada do que eu quero, eu tenho.
M.S.
Estas palavras não teriam qualquer sentido se não fossem sobre ti. Se não te pertencessem, e se não as soubesses. Não seriam verdadeiramente apelidadas de palavras se não girassem em teu redor. Muitas vezes elas são roubadas de ti, momentaneamente, deixando odores no ar que não os teus e sendo ouvidas por outro alguém que não tu. Mas elas conhecem o caminho para casa. Elas sabem sempre regressar a ti. Permitem-me guiá-las, como se desconhecessem quem és. Mentem para não me magoar, mentem para que te encontre pela mais que infinita vez na minha memória.
Estas palavras não seriam tuas se eu não existisse ou se tu não existisses
M.S.
Olhei para as sapatilhas enquanto as calçava. Já fugiram comigo para os mais diversos lugares. Já percorreram tantos quilómetros comigo. Mas nunca os suficientes. E a culpa não é delas que tentam proteger os meus pés que desprevenidamente calcam caminhos irregulares que me fazem feridas difíceis de curar. Sem elas eu iria pontapear pedras que rolariam pelo meu caminho, tentando que eu saísse e provavelmente desistiria de seguir em frente.
Tive a sensação, ao olhar para as minhas sapatilhas enquanto as calçava, que nada do que tinha pensado era verdadeiro. Não foram elas que me deram a coragem para me despedir de ti, para correr no sentido oposto, na direcção contrária. Não foram elas, mas eu prefiro pensar que sim. Prefiro que a metáfora que escrevo seja a realidade, escolho colocar a culpa nelas como se tivessem vontade própria. Só assim eu consigo compreender que no dia em que decidi fugir de ti, a decisão não foi minha mas sim das minhas sapatilhas. E não importa qual tenha sido o par, todas elas têm a mesma função. Proteger os meus pés fracos já de si e levar-me para longe de ti. Olhei então uma última vez para o par de sapatilhas que calçava e ganhei coragem para fugir mais um dia. Pronto para correr a qualquer momento para uma rua onde não te encontrasses.
M.S.