Um poço.
Um poço, no cimo de um cume, no meio do nada. As pedras
que o compunham, fraturadas, circulavam a pouca água que, suja, jazia no seu
fundo.
Ocasionalmente, de passagem, alguém alcançava o poço.
Gritando e ecoando, as gargalhadas aqueciam as suas
paredes. Reflexos de uma memória ou outra, pintavam momentaneamente a água que
reluzia a fraca luz do sol.
Pegando numa pedra qualquer, caída no solo pobre de
vida escassa, fazia-a cair pelo poço a dentro. Contava alto, tentando adivinhar
quantos segundos até alcançar o fundo.
Uma pedra atrás da outra. Quando, por fim, as pedras
deixavam de surgir e o poço se via de fundo tapado, virava costas. As nuvens,
de cor cinza trovejantes, contavam os passos até o poço ficar fora do alcance.
Era um só poço.
Solitário, cheio de tudo e todos. Preenchido de nada.
Quieto no seu canto, servindo o seu propósito, até
que, quem o visitava, percebia que haviam melhores águas, límpidas e
cristalinas, sem a presença de pedras lançadas sem piedade.
Pobre poço.
No seu cume, era o favorito de quem lá passava – isto é,
até avistarem um melhor cume. Um qualquer cume esverdeado, casa da leve melodia
de todos os passarinhos que, alegremente, chilreavam de flor em flor.
Um poço que servia os turistas da sua vida. Os passantes.
Aqueles que tentavam matar a sua sede, retirando um punhado de água de cada
vez, por não terem mais para beber, até estarem prontos para outro destino. Um poço
que, sem pedir nada em troca, dava tudo o que tinha.
Sem nunca ser suficiente. Esperando, um dia, ser
suficiente.
Para alguém.
Mas sempre só.