Queria estar no lugar onde te encontras, e suportar toda a dor que te adormece o espírito neste instante. A verdade é que sinto-a mesmo estando a incríveis distâncias de ti, mas dava-te o meu corpo, para que pudesses usá-lo como escudo de protecção. Dava-me a ti para que pudesses fazer-me sofrer com a dor que estás a aguentar agora, neste momento.
Sacrificava-me por ti, ou vice-versa. Não gosto de te sentir chorar por dentro e ver-me chorar por fora.
Fugir por caminhos opostos, ou até suplementar memórias do que já não existe ou tenta desvanecer. Soltar imagens aprisionadas na mente baralhada por tamanho vazio e esquecer as diferenças que marcam a tua pele neste instante que já dura há eternidades.
Mudaste tanto e desconheço a pessoa que outrora estava aqui ao meu lado. Leva o que não faz mais falta, mesmo que implore para que deixes cada pormenor teu para que depois sofra com a dor da saudade de desconhecer quem está ali a uns escassos metros de mim. Ainda te procuro, mesmo que o negue, mesmo que desminta cada palavra que acabo de dizer. Ainda tens esse poder sobre mim, não consigo controlar o que me pedes e simplesmente liberto um descontrolo prejudicial em mim. Ouço-te sempre antes de me ouvir a mim, aliás,nem me ouço de todo e é esse o mal.
Ainda não consigo descobrir caminhos diferentes dos teus, ou até adicionar imagens do que escapa por entre os dedos ou tenta correr com todas as suas forças de mim. Não sei se o destino prefere que te encontre para me torturar ou que te esqueça, também para me torturar. De qualquer forma já me habituei a esta tortura e sei que sem ela, já não sei viver.
Não encontro a vontade de me articular pelas palavras. Sinto o que sou sem ter que me expressar, fujo da dor e assim, consequentemente, de vocês. Desculpem a minha ausência, perdoem a minha ignorante felicidade. Eu sei, não é real, mas por enquanto viverei outro dia iludido, esperando até que a realidade chegue até mim. Até lá espero não ter que vos pedir auxilio, até lá…
17. Pensei que longe de casa dormiria melhor. Procurei o refúgio das pousadas de infância onde nunca estiveste comigo. Mas agora já não consigo estar longe de ti. Tudo está tocado por ti. Tu estás em tudo – noite negra ou inundada de dia, montes, noite minha, noite nossa, noite dos teus braços que não há. Pensar. Construir uma barragem lógica de palavras contra a terrível imaginação da vida. Organizar a memória em estantes, filas de carrinhos que se empacotam para outras pequenas mãos, outros brinquedos. Desfazer-me de ti como do calor, nas ondas deste mar onde cintilam os sonhos parados da minha adolescência. Lembrar-me de mim antes de ti – mas tu já não deixas. (…)
Desmoronar, derrocar, cair, tombar. Tantas formas de descrever, mas nenhuma a correcta. Foste tu quem desmoronou, derrocou, caiu ou tombou em mim e mesmo assim eu encontrei-me no chão contigo. Mas não hoje, nem amanhã, ontem. Hoje vejo-me percorrendo um novo amanhã, em busca de algo que não seja superior a ti, apenas diferente. A luz brilha enquanto o calor do chão percorre os meus pés. Não desmorono, derroco, caiu ou tombo mais… Preenchi o vazio que tinhas ocupado, e indiferentemente segui algo diferente a ti.
Ainda me lembro, vieste ter comigo porque o meu mundo tinha desabado, mesmo quando tinhas as tuas histórias para construir. Não pedi, não precisei, e mesmo assim apareceste para construir o meu mundo e deixar, por momentos, o teu de lado. É assim que escolho lembrar-te, colhendo as lágrimas que lancei ao chão e, roubando-me sorrisos.
Parece que foi ontem… Ligaste-me no dia seguinte com preocupação, contando o conjunto de histórias que tiveram lugar na noite anterior para que eu esquecesse a minha. Pediste-me as opiniões que, na altura, valiam ouro e transformaste pela última vez a minha tristeza em felicidade.
Tropecei tanto nas tuas pequenas mentiras, penso eu agora. Mas não importa porque quando as vivi, foram os melhores momentos da minha vida. E a pequena mentira que vivi no dia seguinte foi igual e tão diferente. Foste ter comigo outra vez, como se soubesses o que se avizinhava, e sei agora que sabias de verdade. Mantiveste-te junto a mim dizendo que não interessava mais nada apesar de eu saber que não era a verdade. Mais uma vez, não importou. Foi assim que escolhi relembrar-te, nos teus melhores momentos fazendo-me tropeçar nas tuas pequenas mentiras. É assim que te vejo hoje quando escolho não olhar a realidade que te transformaste.
Como hei de te chamar hoje? Ontem o teu nome era tão certo como ter-te a meu lado, e hoje vejo-me afogado na ilusão. Que nome hei de substituir pelo que sempre conheci? Onde encontrar-te quando não me encontro junto a ti? Ainda és capaz de guardar um segredo? Cheguei a saber que nunca o foste, e nisso, mais uma desilusão sobre ti. Não irás responder outra vez, irás ficar em mais um silêncio eterno tentando evitar as perguntas às quais já sei as respostas.
Repetirei sempre o que antes te disse, porque no fim de tudo, as minhas promessas duram para sempre. O mesmo não posso dizer das tuas, de ti (infelizmente). Foi só mais uma vez…
Cala este silêncio, por favor. Acaba com este algo que não sei como chamar ou descrever. Determina um fim nas linhas que escrevo diariamente, e diz-me que novas palavras hei de escrever. Leva as palavras que são arrancadas do meu orgulho, arranhadas, feridas e torturadas por ti, apenas por ti.
Outra e outra vez, uma pontada no estômago de cada vez que aquela imagem pára na minha memória e me atormenta. Aquela imagem negra que suscitou tantas dúvidas e ainda mais certezas, certezas que ainda hoje estão presas a uma pedra que não consigo atirar para longe de mim, para outros mares. Outra e outra vez, uma espécie de dor, demasiado ligeira para sentir, demasiado forte para esquecer.
Tenho um desejo profundo por desconhecer as palavras que tomam a minha dor, mesmo quando as sei de cor, como o reflexo que vejo todos os dias ao espelho. Continuam perseguindo-me as vontades de rasgar as páginas escritas que insistem sobre mim para regressar a essas palavras, palavras de saudade que o tempo destruiu.
Não irei desconhecer as palavras que tomam a minha dor, e não há mais ninguém a quem culpar senão tu e é por isso que te sinto tão bem, rastejando na minha dor e atacando o que resta do meu coração. Aos meus olhos chega a imagem de ti, no relógio do tempo, retrocedendo-o de cada vez que quer avançar… Só tu consegues fazer-me parar no tempo.
Não há mais nada que te possa dar, mais nada de mim para ti. Não há mais razões para desculpas que justifiquem os actos, ou pela escassez com que encontro o meu chão. Já nada justifica o que te tornaste, já nada justifica o que és para mim. Já nada me faz evitar procurar os teus olhos, pois finalmente entendi, foram extintos há muito.
Custa tanto. Mesmo quando tento refugiar-me em tudo o que me envolve. Quando acompanho (apenas) os risos das pessoas que me rodeiam ou quando corro atrás dos passos dados seguindo um caminho que é de outro alguém. Custa, demasiadamente.
É sempre um alívio quando não te encontro. Quando percorro em segurança as ruas que estão livres de ti. É sempre um alívio não te ver, olhar para ti e não te encontrar. Irá sempre doer o pedaço que falta em mim, mas apenas dói por sentir que já lá esteve. De resto, …
Existem pessoas que nunca morrem, que vivem dentro de nós por longas eternidades. E a felicidade tão abundante nos ilumina, até que as perdemos. Mas não deixam de existir dentro de nós. Nada dura para sempre, mas nunca conheci alguém que fosse um nada e é por isso que irás durar até que eu me perca também,até que te encontre outra vez…
Sem as cordas que te prendem na minha memória. Sendo, apenas sendo. E se no passado te tenho que mencionar, prefiro manter-te no silêncio que me atormenta todas as noites quando não te descubro, quando te esqueço.
Não te sinto.
Não sei como agir, nem que pensamentos escolher para avançar. Antes era tudo mais fácil. Estavas tu e nos confins de mim, a tua voz dizia-me o que fazer. Era mais fácil, penso eu, sabendo que no fundo me estou a enganar. Não importa, de nada serve.
Deves estar morto.
Irei repetir para mim próprio estas palavras tantas vezes as quanto precisar para acreditar nelas. Repito para que vinquem, como as palavras que me disseste e nunca esqueci, como as promessas que deixaste por cumprir e ainda me perseguem.
(...) Yesterday seems like a life ago cause the one I love today I hardly know you I held so close in my heart oh dear grow further from me with every falling tear...
Ainda és as correntes que me mantêm aqui. Os teus passos continuam a acordar o silêncio. A tua presença persiste em ser a razão pela ausência contínua de palavras. És um verbo conjugado em todos os tempos.
Sim, se cada vez que no fundo da questão te procuro, os meus olhos estão cegos, e se por todas as vezes que a minha voz não liberta um som, chamo-te. Todas as contrariedades têm o teu nome. E por mais uma vez, se me tocas no braço, não sinto. Vejo-te cegamente tocando-lhe e não pergunto o sentido, porque se já nem a tua voz eu ouço, o resto não existe.
Estes tempos, segundos acumulados em que a necessidade de escrita tenta por tudo libertar-se e eu tento escondê-la, enquanto sofro com a sua necessidade. Enquanto tento respirar fundo sem te descobrir em parte alguma, ou sentir a dor a latejar e não ver a sua mão esticando para mim. Eu tento, esconder no meu interior, nestes tempos.
Os tempos em que me procuro nas pessoas erradas quando já sei onde pertenço, tempos em que ouço o meu nome no vento e não reconheço a voz que o chama, tempos em que leio palavras que escrevi e pergunto-me de quem são. Tempos cruéis, que secando a minha garganta, levam-me para um lugar desconhecido onde não encontro a melodia que preciso para sobreviver.
Segundos dolorosos que lentamente me queimam a carne, mesmo sem descobrir em tal escuridão os ponteiros que lhes dão vida, e que me continuam levando para lado nenhum. É tudo tão escuro, nestes tempos.
São cacos que ardem cá dentro, que cortam cada vez que tentamos respirar. Que procuram a nossa dor, sem interessar o quando escavamos para a enterrar. O buraco nunca é suficientemente fundo. Encontro-te sempre.
Hoje larguei tudo, tentei evitar a dor que me corria por dentro, e fui até ti. Dei-te o que é meu e por instantes soube que nunca precisaria de outra forma de aliviar a dor. Tudo desaparece quando te encontro em mim.
You said you'd be there for me In times of trouble when I need you and I'm down (...)But I see lately things have been changing (...)But the roads you take abroad are heartless That wants you make another way You throw stones Can you see that I am human I am breathing? But you don't give a damn
Can you feel my heart is beating? Can you feel the pain you're causing?
Can you feel my heart is beating?
Can you feel the pain you're causing?
Can you feel my heart beating? No no no... You don't!
É só mais uma das pedras que nos levou ao fundo. É só mais uma porção de peso que impuseste nas minhas costas e nas minhas palavras. É só isso. Um peso constante que nos impede de chegar ao cimo, que marca as já marcadas feridas e que substitui o teu lugar pelo das tuas novas acções e nova pessoa.
É isso, é apenas isso, um peso. Foi nisto que te tornaste.Algo que não quero suportar mais. Algo que me mantêm no chão, que me faz (des)esperar a mão que sempre me levantou. Um nada de muitos pesos que me abatem todos de uma vez. Não quero suportar mais o teu peso, a tua existência, as tuas acções nas minhas palavras. Não quero mais suportar(-te). És a pedra que nos levou ao fundo. És só isso.
E, como sempre, revi-te da forma que não queria. Partindo-te para longe de mim, de mim… Pelos caminhos em que não posso correr, pelos caminhos onde te vais. E, se o que vejo é o que será, quero encontrar uma forma de te socorrer, uma forma de agarrar enquanto me largas. Uma forma de te desviar desse caminho que te leva para pedras de calçada desconhecidas das minhas.
Partindo partido, sozinho me irás. Não revejo mais, não…