segunda-feira, 21 de setembro de 2026

passo em falso

Se escrever fosse ar, penso, não sabia mais respirar. Asfixiado a olhar para o papel, à procura das palavras certas para dizer que não consigo sentir mais que isto. E mais que isto, é pouco.

Deixo-me ficar sufocado, palavras entaladas na garganta, impedindo qualquer passagem de ar.

Sem oxigénio.

Parece que só consigo respirar quando a dor se faz sentir em mim, como que só assim conseguisse ser eu. No fundo, a mera inexistência de inspiração deixa-me tão frustrado que fico neste impasse. Sustendo a minha respiração até que algo aconteça.

Algo surja.

Algo me magoe.

Algo.

Mas nada acontece. De tal forma que, como sou masoquista, acabo por calçar as minhas sapatilhas e sair de casa.

E corro. Corro à procura da dor.

Corro por aquele caminho que costumo seguir.  

Em círculos, em redor de ti.

Num “tudo o que vai, volta”.

Sempre até nós.

Perdido.