terça-feira, 16 de novembro de 2021

cáustico

Naquele pequeno quarto, em que a brecha da janela deixava entrar um sussurro de amanhecer, quis que fôssemos para sempre. 

Mas não fomos.  

Deixámo-nos ali. Como as toalhas que ficaram pelo chão. Como o lixo que ficou por recolher. Devia ter deixado os meus medos, também, não é? Mas não consegui. 


Levei-os dentro da mochila, de volta para casa, e arrumei-os, assim que cheguei, debaixo da minha almofada. 


Deixar-te é sempre uma estranha sensação. 


Quando me despedi de ti, tentando parecer forte, pensei no tamanho alívio que devias sentir naquele momento. Uma e outra vez, sei que me queres longe. E uma e outra vez, eu tento ir. Voltando apenas quando chamas, só quando me chamas, porque a minha vontade própria também a deixei algures. 


Ao fechar a porta da tua casa, rodeado de bagagem e de sentimentos que me pesavam nas costas, quis ficar. 


Tudo é temporário. 


Durante anos foste criando calo, como aquele torcicolo que aguentamos porque não temos outro remédio, todavia não sei até quando te irás aguentar neste aborrecido labirinto de confusão que sou.

 

Deixámo-nos naquele quarto, onde devíamos ter ficado. E doeu-me. 


Mas agora, deitado na minha cama, os meus medos amarram-me a mente e o sono desvanece pelo silêncio da casa.


Estou sozinho. Outra vez. 

 

(Alguma vez deixei de estar?)

 

13.11