Olhei para a rua.
Havia
uma calma penetrante. Tinha chovido e uma luz laranja iluminava as gotas de
água que adormeciam no capô dos carros que pernoitavam, lá em baixo, no
passeio.
Na
sala, o som da televisão ecoava e engolia o silêncio, enquanto me sentava na
cadeira da mesa de jantar, enrolado numa manta.
E
eis que uma estranha sensação de tranquilidade caiu sobre mim. Aquelas paredes
eram, agora, minhas – depois de tanto. Depois de tudo. Em paz, dei por mim a
pensar no quanto ainda iria sofrer, ali. Na minha casa.
Sossegou,
esse pensamento, como que uma calma antes de uma tempestade eminente. Tal e
qual a calma que, agora, se debruça sobre a rua, enquanto as nuvens se agrupam
e o vento começa a soprar.
Vai
chover, também, nesta casa. E vai doer.
Comtemplei,
serenamente, este pensamento. Abracei-me a mim próprio, protegido do frio pela
manta que me enrolava e esbocei um tranquilo sorriso.
Vai
doer. Mas estarei aqui – depois de tanto. Depois de tudo.