terça-feira, 27 de outubro de 2020

homE

Olhei para a rua.

Havia uma calma penetrante. Tinha chovido e uma luz laranja iluminava as gotas de água que adormeciam no capô dos carros que pernoitavam, lá em baixo, no passeio.

Na sala, o som da televisão ecoava e engolia o silêncio, enquanto me sentava na cadeira da mesa de jantar, enrolado numa manta.

E eis que uma estranha sensação de tranquilidade caiu sobre mim. Aquelas paredes eram, agora, minhas – depois de tanto. Depois de tudo. Em paz, dei por mim a pensar no quanto ainda iria sofrer, ali. Na minha casa.

Sossegou, esse pensamento, como que uma calma antes de uma tempestade eminente. Tal e qual a calma que, agora, se debruça sobre a rua, enquanto as nuvens se agrupam e o vento começa a soprar.

Vai chover, também, nesta casa. E vai doer.

Comtemplei, serenamente, este pensamento. Abracei-me a mim próprio, protegido do frio pela manta que me enrolava e esbocei um tranquilo sorriso.

Vai doer. Mas estarei aqui – depois de tanto. Depois de tudo.