sexta-feira, 31 de outubro de 2014

WML II



                E então eu disse-te que estava perdido. Já se tinham passado meses e esta era a primeira vez que experimentava ser sincero contigo. Tu não levaste a sério e eu não levei a mal. Mas depois – quando nos apercebemos de que estávamos juntos nesta verdade – ficou tarde.

               Agora eu tento lembrar-me que já não me importo e tu deves fazer o mesmo. Deves guardar todas as minhas falhas. E também deves esperar que eu volte para me apontares todos os defeitos e me mostrares a má pessoa que sou. Eu sinto-me tentado a fazer-te a vontade – como sempre fiz – mas já não o posso fazer.

             Sabes muito sobre mim. Muito. Conheces-me como ninguém. Mas não o suficiente. A pessoa que era contigo já não existe. Eu mudei. Agora consigo admitir as minhas falhas e as vezes em que fui fraco. Vejo de forma clara os erros que cometi e tento pôr de lado os teus. Já não importa.

             A verdade é que quando te disse que estava perdido não sabia que me ias encontrar. Nunca imaginei que tudo isto acontecesse. Não dei valor. Tu também não. Fomos fracos e não aguentámos.

           Vês? Quando cuspi pela tua garganta abaixo que gostava de ti não te estava a mentir. Ainda não entendo como podias ter tanta dificuldade em acreditar em mim. Como não reparaste que nunca me tinha exposto daquela forma? Que mais iria eu ganhar se já eras minha? Nada. Eu tinha tudo porque te tinha a ti. E tu também. Era o suficiente.

              Mas estávamos enganados e o tempo já passou.

             Tu continuas a ser o meu cheiro favorito. Um fantasma nos meus pulmões que queima e rasga. Talvez isto chegue para que agora acredites quando te digo que estou mesmo perdido…  

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

sleeplessnights



                Sem sono. A madrugada abraça-me. O vazio pesa e esmagada. O meu peito bate alto num murmúrio surdo. Que é de mim? As peças caíram em meu redor, estilhaçadas pelo chão. Peço ajuda sem falar. Afogo na tristeza que me escorre pela face. O que é isto? Respirar custa e não há nada por perto. Estou sozinho e sem ninguém. A multidão traz o mesmo eco mostrando que não há diferença. A escuridão cobre-me e vejo-me o vazio. O que deixo por dizer cai-me pelos olhos. O oxigénio torna-se escaço e a solidão dá-me a mão. Este é o meu único contacto. Todas as noites. Repetindo-se por entre as horas viciosas que vagarosas passam a dias. Estas olham-me nos olhos e dizem-me com um sorriso, Aguenta., apenas para ouvirem dos meus lábios secos, Não consigo mais.

             O sono teima em não vir. Os comprimidos que tomei adormeceram por mim. O cansaço mantem-se o mesmo. Não consigo mais. Deixo-me cair e cair. O que é isto? Que coisa é esta? Não me vejo mais, prefiro não olhar. Prometo. Falho. No que me tornei?

             Vivo assim. O sol espreita pela persiana. Aprendo a mentir mais um sorriso. Tapo feridas de balas com pensos rápidos. Espero pelo abraço da madrugada para que tudo se repita.

                No que me tornei? Já nem isto faz sentido… 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

"não confias em mim?"



                Desde o princípio que te ouço dizer que tens dificuldade em confiar nas pessoas. Eu disse-te o mesmo. Ainda hoje sou desconfiado por natureza. Mas ao longo de todo este tempo eu dei por mim a confiar em ti na totalidade. Sem segredos. Aliás, tu pedes-me esses segredos. Dizes querer saber de tudo e eu, cegamente, entrego-tos. Mas não é mútuo, pois não? Dizes-me que sou das pessoas em quem mais confias e que confias “plenamente” em mim. A minha pergunta é: Onde?
                Por mais que procure, não vejo essa confiança. Tenho sempre de interpretar as tuas palavras e gestos para saber o que ocultas de mim. Pergunto e não recebo respostas directas. E, é com grande dor que escrevo isto, nem sempre acredito nas respostas que recebo. E é triste. Eu confiaria a ti o meu maior segredo, sem pensar duas vezes. Eu confio em ti. Demais até. Porque mais uma vez sou eu a dar muito de mim a alguém que dá de menos, muito menos. És provavelmente a pessoa que melhor me conhece. Se me conheces assim tão bem, se sou tudo o que dizes, como podes ser assim para mim? Alguma vez te dei motivos para isto?
                Sempre ouvi dizer que quem mais desconfia é aquele que mais mente…   

sábado, 18 de outubro de 2014

desisto.



                Leio muito quando estou triste. Muito, mesmo. Quando não encontro palavras para escrever o que sinto, procuro-as. E torna-se patético a quantidade de frases com que me identifico. Existem tantas pessoas que sentem o mesmo. E são tantas as frases que foram escritas para mim – frases que me reflectem. São frases minhas que não disse e que pensei. Frases que criei e enraizei em mim sem nunca as pronunciar. Respostas que esperaram pela pergunta e que morreram-me nos lábios. Triste. Assim que as encontro morro mais um pouco. E, como hoje, quando as leio sinto o avassalador vazio que existe dentro de mim.
                Nunca me senti tão sozinho como ultimamente. Nunca. Não sei como reagir a isto. Não tenho sequer força para reagir. Já nem as palavras me ajudam. Que fiz eu de tão ruim? Deixar de sentir por ter sentido de mais? Não sei. Já não sei nada. Será que alguém levaria a mal se eu desistisse?  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

+



            Muito se passou. Ainda ontem nos chamavam de gémeos siameses. Lembraste disso? Após uns meros dois meses já nos chamavam assim. Parece que foi ontem, não? Mas agora que esse ontem passou a três anos, acredito que realmente existe uma ponta de verdade nessa gracinha. Olha bem agora para nós. Somos uma espécie de mente que habita em dois corpos separados. As nossas parecenças são muitas apesar das abismais diferenças. Um pouco como o Yin e o Yang. Algo que se completa sem pressionar ou forçar – algo que acontece.

          Não sei como aconteceu. Não acredito no destino ou em coincidências. Não acho que algo esteja escrito ou determinado a acontecer. O que eu sei é que olhando para trás não conseguiria repetir os meus passos sem te ter ao meu lado. Mostraste-me que um verdadeiro amigo vale mais que uma dezena de familiares. Talvez seja por isso que te veja como um irmão. Não como um amigo a quem utilizamos o termo levemente mas no verdadeiro sentido da palavra. És literalmente como um irmão mais novo para mim. E não sei como isto aconteceu.

           Hoje é o teu dia. Gostava de puder partilhá-lo contigo e dar-te um abraço mas não nos é possível. Espero então que consideres o significado destas palavras ocas e as vejas como o forte abraço que não te posso dar. Confio que nestas também vejas espelhada toda a tua força sobre-humana e que entendas o quão orgulho tenho em ti por sempre lutares mesmo quando te sentes a fraquejar – essa é a verdadeira força e é essa força que espero um dia ter.

            Tudo o que um dia espero ser, está em ti.

            Obrigado por trazeres ao de cima o melhor de mim, mesmo quando eu não o quero. Obrigado por conheceres as piores partes de mim e mesmo assim ficares ao meu lado. E obrigado por teres aparecido, mesmo que ainda não sabendo como, na minha vida e melhorá-la consideravelmente.

            Espero um dia conseguir retribuir tudo o que fazes por mim.