Suspeitei que a casa estava deserta quando vi que não se encontravam carros nas traseiras da mesma. Abri o portão com uma alegria momentânea e perdi alguns minutos no quintal, brincando com a cadela, antes de criar estofo para entrar em casa. Naquele sítio, logo o tempo retrocedeu e dei por mim entrando no carro com uma sensação de desconforto alojando-se no fundo do meu peito. Ia ganhando a consciência do esforço necessário e questionando se realmente deveria estar a percorrer aqueles quilómetros para chegar a casa. Dentro de pouquíssimo tempo estaria ali, em casa, e, naqueles tempos, isso danificava-me. Se não tivesse a noção de que acabaria com a minha vida, teria aberto a porta do carro em andamento e fugiria pela auto-estrada, de volta a um local que nunca pensei querer estar. Abri a porta de casa e o cheiro familiar fez-me sorrir. A cadela correu atrás de mim, dando voltas entre as minhas pernas, chegando à cozinha primeiro que eu. Atravessei o corredor e entrei pelo quarto a dentro, ignorando os sinais visíveis de que alguém tinha lá dormido, alguém que não eu. As horas passaram e com o chegar da noite, também o clima hostil se demonstrou. O silêncio era enorme embora, naquele momento, uma família inteira estivesse ali. Sem acender as luzes, percorria aquele chão, manchado de pegadas invisíveis, com cuidado para não fazer barulho. Qualquer som poderia eclodir numa explosão de palavras magoadas que acertariam como flechas. Cada passo dado falava por mim, atirava para o ar uma palavra e formava aquela tão cruel pergunta: Vim de tão longe para isto? Eu não queria estar ali, e nunca teria imaginado que estas palavras invadissem o meu pensamento. Tudo o que eu queria era paz, entrar e sentir-me verdadeiramente em casa, sem preocupações, sem egoísmos, sem erupções de raiva porque não consegui aguentar mais. Voltei atrás e fechei-me no quarto, naquele silêncio tão horrendo. Inspirei fundo, acalmei-me e sorri, mais uma vez, obrigando-me a lembrar-me que se nem na minha casa eu queria estar, não havia mais sítio para mim. E talvez não haja mesmo…
3 comentários:
Antevejo essa situação e ainda me falta coisa de um ano para ir para a faculdade. Mas sei que vai ser assim.
E para isso mais vale ficar longe o suficiente para o preço dos bilhetes de comboio servir de desculpa.
Beijinhos*
perfeito :) <3 és o maior !
Sinto-me completamente bem ao ler o que escreves, perfeito, perfeito..
"Qualquer som poderia eclodir numa explosão de palavras magoadas que acertariam como flechas."adorei
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