sábado, 30 de outubro de 2010

Ausente. (Parte 3)

Era-me difícil respirar. Abri a porta de casa, sem tempo para pensar no que fosse, e desci as escadas do prédio submersas na escuridão. A luz dos candeeiros nocturnos iluminava apenas a entrada do prédio e detive-me por instantes, como se precisasse de um minuto para saborear verdadeiramente o próximo momento. Ainda conseguia ouvir o eco dos meus passos apresados, descendo as escadas, num compasso cadenciado. Não era a primeira vez que saía de casa, na esperança de que o ar gélido da noite me preenchesse o espírito. Dava muitas vezes por mim nesta necessidade de compreensão, na escassez de calor, no sentimento mútuo de perda. O ar glaciar conseguia petrificar ainda mais as entranhas do meu coração que desesperava num pulsar emergente e isso conseguia, de forma totalmente corroída, reconfortar-me. Saí porta fora, com uma nova onda de adrenalina. Conseguia sentir a desilusão escorrer pelos carros que ladeavam os passeios, cheirar as lágrimas que gotejavam nas janelas das casas vizinhas, saborear todo o tempo que perdi em sonhos que hoje estavam desfeitos. Estavam inúmeras pessoas na rua, festejando a vida, bebendo os mais diversos líquidos de um só trago. Uns traziam garrafas nas mãos e outros traziam copos. Falavam alto de mais e provocavam os carros que passavam pela estrada molhada. Eu passava pela multidão, aquele actor social que, naquela noite, pouco importava. Ouvia conversas distantes, tanto importunadas como alegres, num misto de gargalhadas e gritos de fúria. Encontrei um jardinzito com duas árvores e meia dúzia de bancos degradados pelo tempo, paralelo a uma ruela escura e suja, e sentei-me. O vento frio soprava forte dando uma falsa sensação de liberdade. Fechei os olhos e quis ficar ali, quieto, sentido o gelo que me envolvia levantando voo. Podia ter aberto os olhos a tempo de ver aquela estrela cadente iluminar a minha cara, mas quando abri os olhos ela já tinha passado. Podia ser este o título da história da minha vida – Tarde de mais. Sempre tarde em compromissos, em prazos, em te encontrar. Levantei-me abruptamente e caminhei de forma pesada sobre as pedras de calçada. Ao longe um relógio tocou uma badalada e os pássaros agitaram-se no cimo das árvores. Se eu pudesse partiria para longe. Pegava nos detalhes que destruíram a minha vida e levava-os para lá. Dizia-lhes adeus e fugia para o fundo do mar ou até mesmo para o cume mais alto. Não era importante porque fugir é sempre um fim, um enterro. Tudo o que eu queria, naquela noite, era fugir de ti enquanto te procurava. Pular muros para te dizer que ainda não sabia respirar sem ti e fugir para que não me fosse possível ouvir a tua voz e, consequentemente, a tua resposta. Tudo em meu redor vivia, quer a dormir ou a festejar, a trabalhar ou até mesmo a morrer, excepto eu que agora estava sentado mais uma vez, no mesmo banco degradado pelo tempo, naquele jardinzito com duas árvores e meia dúzia de bancos, paralelo a uma ruela escura e suja, a pensar no quando eu perdi por te encontrar. O vento voltou num voto de confiança, levando o frio, o gelo, o som. Deitei-me naquele banco, porque as paredes do meu quarto eram demasiado ameaçadoras, e lembrei-me das vidas passadas em que estava livre de ti. Adormeci então com um sorriso de genuína felicidade nos lábios, embevecido com a beleza do passado, e até tu, se me tivesses podido ver naquele momento, terias ficado com orgulho de mim por conseguir sorrir depois de tudo o que me fizeste. Juro.

M.S.; 28 de Outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ssiv

Ainda ontem te vi partir pela primeira vez. Dentro da tua pequena mala levaste tudo o que era meu, guardado a sete chaves, perdido nos inúmeros objectos que construíam a tua vida. Sorriste para mim, de forma afectada, de lágrima ao canto do olho e disseste “Vou ter saudades tuas.”. Soube nesse instante que nada seria igual. Tudo o que conheci afundou-se com o meu espírito. Esperei e desesperei para que voltasses do teu novo mundo - esse sítio onde o tempo não existia - mas apesar de o tempo existir em dobro sem ti, tu voltaste. Percebi nessa altura que bastava uma pessoa, desde que fosse a certa, para fazer o Sol brilhar novamente. Hoje vemo-nos longe um do outro, mais uma vez. Separados por quilómetros de pegadas que nos levaram para outras distâncias, em caminhos que já percorremos antes, sem notarmos no que ficou. Habituámo-nos a esta ausência e aprendemos a aproveitar todos os segundos que partilhamos juntos. A distância deixou de quebrar as nossas asas e fomos capazes de voar um até ao outro. Mas, hoje, tu estás demasiado longe e inalcançável, e eu só preciso de ti. De sentir a tua mão na minha face enquanto me dizes que está tudo bem… Nunca soube o que escrever sem ti, e hoje foi mais um desses dias.

sábado, 16 de outubro de 2010

costas voltadas

No meu quarto, em Faro, estão algumas fotografias das pessoas mais importantes da minha vida. Tu apareces em duas mas em ambas, estás de costas voltadas. O que diz isso de ti? - 12 de Outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

mobília

São 17:18. Ouço a música a tocar, embalando-me pelas teclas do portátil, enchendo-me de sentimentos que não gosto de sentir, soltando palavras que não gosto de escrever e que libertam memórias que me fazem doer o estômago e o espírito. O sol entra pelas frechas da persiana e bate-me na cara, o vento entra pela janela e leva a mim o cheiro a coco que inunda o oxigénio do quarto. Recordo tardes em que tudo estava exactamente igual embora em locais diferentes. Em que tudo o que era partilhado era sentido e aquecido pelo sol de tardes como esta. Tudo no ar me é familiar. A luz, os sons, o cheiro, as cores, … e até os móveis. Os móveis que estão nestas quatro paredes estão dispostos da mesma forma que os móveis do teu quarto e só agora me dei conta disso. Sorrio ironicamente, lançando pragas ao destino, tentando ignorar o desconforto deste pequeno detalhe. São 17:29 e apesar de estar aqui há três semanas, três longas semanas em que nem assaltaste o meu pensamento, foram precisos apenas onze minutos para me relembrares que ainda consegues abrir o meu peito e levar contigo o meu coração.
M.S.

domingo, 3 de outubro de 2010

Regressar.

A chuva regressou, maltratando mais uma vez as pedras do meu quintal como se nunca tivesse deixado de o fazer; o vento fantasmagórico que percorria as folhas das árvores ia construindo uma melodia tenebrosa que evoluía, entrando pelos corredores de casa e chegando mesmo, numa ligeira brisa fria, ao meu quarto. Meio adormecido em sonhos que só a minha cama me traz, eu senti a aragem na cara tentado despertar-me para o que parecia ser o último dia de liberdade. Não queria abrir os olhos. Queria deixar-me enrolado no lençol, no conforto da minha cama, do meu quarto e da minha casa. Não queria regressar ao cheiro que ainda não conheço, ao sentimento de abandono que aquelas paredes me trazem, à vida que ainda não me habituei. Eu não queria nada a não ser ficar ali. Mas, contra as minhas vontades, eu suspirei bem fundo, abri os olhos e levantei-me. Senti o frio percorrer a sola dos pés até chegar-me ao coração que em poucos dias tinha reconhecido o calor comum do seu passado e um arrepio, que nada tinha a ver com esse frio, fez-se notar. Olhei em redor e ganhei coragem para dirigir-me a mais um dia em que iria para muito longe, tão longe que, mais uma vez, teria que arrumar a minha vida toda para levar comigo. Lá fora, a chuva tinha acalmado e tinha levado consigo o vento forte que me empurrava para um lugar desconhecido. Lentamente, dei um passo, seguido de outro e de mais outro. Ainda não quero ir; ainda quero estar onde pertenço. Mas isso já não é possível…