terça-feira, 19 de maio de 2026

adrift.

A tua voz está diferente. Tão diferente que o meu nome até me pareceu outro.

Aliás, quando me voltei, não te consegui ver. Pareceste-me uma outra pessoa. Alguém que nunca conheci e que estava a fazê-lo pela primeira vez.

Tão diferente.

Como se não soubesse em que gaveta tens guardada a tua roupa interior;

Como se não soubesse quais os teus cereais favoritos para comer de manhã, aqueles sem glúten;

Como se não me despedisse da tua mãe sem ouvir um “Já vais embora? Não queres cá ficar?”;

Como se os teus sobrinhos não me tratassem por “tio Manel”;

Como se a tua voz não tivesse sido a banda-sonora do meu dia-a-dia;

Como se, numa outra vida, não me curasses de cada vez que estávamos juntos.