A tua voz está diferente. Tão diferente que o meu nome até me pareceu outro.
Aliás, quando me voltei, não te
consegui ver. Pareceste-me uma outra pessoa. Alguém que nunca conheci e que
estava a fazê-lo pela primeira vez.
Tão diferente.
Como se não soubesse em que gaveta
tens guardada a tua roupa interior;
Como se não soubesse quais os teus
cereais favoritos para comer de manhã, aqueles sem glúten;
Como se não me despedisse da tua
mãe sem ouvir um “Já vais embora? Não queres cá ficar?”;
Como se os teus sobrinhos não me
tratassem por “tio Manel”;
Como se a tua voz não tivesse sido
a banda-sonora do meu dia-a-dia;
Como se, numa outra vida, não me
curasses de cada vez que estávamos juntos.