“Fiz de ti uma cidade quando
ainda nem tinha encontrado a minha casa.”
Foi isto que rascunhei, à pressa,
no meu bloco de notas, na última vez que pensei em ti.
Eras o aglomerado de todas as
casas que eu queria ter. Via-te nas mobílias que nunca chegámos a escolher e nas
divisões que ficaram por decorar. Via-te num futuro a dois quando a minha
solidão era bastante percetível. Imaginei-te em tantas casas que, inevitavelmente,
acabaste por te tornar uma cidade.
Desde então a minha cidade tem
estado mais silenciosa; mais caótica.
Isto foi há dois meses atrás e só
agora me lembrei de escrever.
Ainda não encontrei a minha casa.
Agora, que os ponteiros demoram o
dobro a mover-se, imagino que quando o fizer, estarei lá. Lá sozinho. Sem ti. Rodeado
de pessoas e sozinho. E, se tudo correr bem, tu estarás longe de mim, longe de
toda a dor que te causei. Sem sequer, sem saber, sem conseguir evitar.
Numa cidade só tua.