Trouxe comigo – debaixo do braço,
pesada e como se não me custasse – a tua falta de vontade. Tomei-a como minha. Abracei-a
como uma amiga que não via há demasiado tempo e, juntos, recordámos histórias antigas.
Falámos sobre a primeira vez que
notei no quão insignificante eu te era. Na ufana dor que a lâmina fez ao trespassar
a minha barriga. Recontámos as horas que esperei por uma palavra tua, na margem
do desespero, engasgado em palavras que não te podia dizer.
Não dei por não te ter. A ânsia
de te perder tornou-me um cego precoce. Escolhendo não ver que apenas me
procuravas nas horas vagas. Preferindo não notar que só era teu quando te dava
jeito.
E, depois de todo este tempo, de
uma forma doentiamente egoísta, a indiferença é tudo o que me resta de ti.
Olha só. Vê bem no que me
tornaste.