Há
sempre receio de cada vez que exponho estas palavras. Ao tentar colocá-las em
ordem, a primeira frase que me surge é ”vai
com calma.”. Imagino-as sempre como um golpe recém-nascido. Mas não é realidade.
Tudo isto já aconteceu há muitos anos. Demasiados. A ferida é velha e o tempo passou.
A
tua partida foi a coisa mais difícil que me aconteceu. Marcou a minha vida de tal
forma que passados 9 anos ainda não a consegui descrever. No entanto, hoje
consigo encará-la da forma que merece – paz.
Foste
a maior aventura da minha vida. Ensinaste-me a maior parte do que sei. E hoje
vivo rodeado de ti. Revejo-nos em sítios que estivemos quando ainda nem sabíamos
o quão dura a vida seria. Éramos crianças e tão desleixados com a preciosidade
do que nos ligava. Não compreendíamos que um dia tudo nos seria tirado. E foi.
Senti
demasiado o chão em que caí quando morreste.
Tranquei-te
em palavras e cortei nas emoções. Deixei a pessoa fria que habita em mim
comandar durante uns tempos. Faltava-me a sensatez necessária para compreender
que só me iria prejudicar.
Os
anos seguintes ensinaram-me isso.
Não
há uma dor absoluta, uma dor única. Tudo dói o tempo todo. Mas cada vez menos. O
corpo humano acaba por reconhecer e encarar a dor como uma infeção com cura. Tudo
passa. Ainda não entendi bem como, confesso, mas tento sempre. Imagino-te nas
minhas atitudes e a tua coragem vibra dentro da minha pele. Consigo tudo.
Agora
sinto serenidade quando penso em ti. Mesmo quando te sinto na brisa enquanto
atravesso uma rua qualquer e o sol se põe algures. Ainda me tira o fôlego, de
vez em vez, mas é esse o preço de ter partilhado uma vida contigo.
Obrigado
pelo privilégio que foi – que foste. Obrigado.