domingo, 31 de agosto de 2014

"És meu."



                Nunca pensei que estivesses certa. Erraste tanto e tantas vezes que nunca pensei que fosse verdade. Agora fica-me sempre um sabor amargo na boca quando me perguntam por ti. A pergunta persegue-me e nunca sei o que dizer. Que resposta mal balbuciada lhes dou? Falo-lhes sobre as vezes em que não conseguia estar em casa e tu falavas comigo durante horas por telefone enquanto eu vagueava pelas ruas? Conto-lhes sobre as fotografias que me mandavas todas as noites para opinar sobre a roupa que irias usar dia seguinte? Leio-lhes as mensagens escritas que ainda guardo no meu telemóvel? Faço-lhes o sorriso que esboçava quando a muito custo admitias que eu tinha razão? Relato cada ciúme e amuo que passou por nós? Ou reenceno o quão boquiaberto me deixaste quando me pediste um filho? Não. Eu podia-lhes falar de muita coisa. Descrever o que senti no nosso primeiro beijo ou narrar a nossa última conversa mas nada disso seria suficiente.
                Nunca ninguém entenderá. Acho que nem mesmo nós.
               E confesso que depois de tudo isto nunca pensei que estivesses certa. Quem diria que depois de todos os erros tu estarias certa quando há seis anos atrás me disseste, pela primeira vez, naquela noite de verão, que eu era teu?

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

bang



                Esqueço-me quem sou. Bebo mais um copo e quase que te afogo. Penso para comigo que está quase mas até a mim mesmo eu minto – estás sempre presente. Quando chego a casa tudo se repete. Encontro-te e digo palavras que nunca diria estando sóbrio. Algo se passa comigo. Ainda não sei o quê mas sei que dói. Por muito que tente não consigo e dói. A magia que submetes sob mim é obscura. Eu fico sem saber o que fazer, como um fantoche esperando indicações. Sem rumo. Se soubesses o quanto eu sinto a tua falta nunca tinhas aparecido na minha vida. Vou bebendo mais um copo e quase que te afogo – quase – sem perceber que quem se vai afogando sou eu…

terça-feira, 26 de agosto de 2014

hope



                Não sei como te substituir. Bebi muito sem perceber que nada tem o teu sabor. Fumei só para aprender que o fumo é teu igual. Experimentei outras pessoas e recordei, sem querer, o teu toque. Nada resulta. A tua ausência é tão forte. Tão forte que mal consigo aguentar os dias que passam e quase que não consigo fingir que não estou a cair aos pedaços. Nem sei como mas crio forças para continuar a tentar substituir-te. E – enquanto bebo, fumo, toco em outras pessoas que não tu e finjo que nada me incomoda – só espero que aquele não tenha sido o último sorriso que vi teu. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

yesterday



                Parece que foi ontem. Despedi-me de ti sem perceber que as tuas palavras não passavam disso. Disseste-me palavras que magoaram de uma forma que deu vontade de repetir tudo novamente. Agora são raras as vezes que te ouço. Quando acontece, eu acredito em tudo o que me dizes e fico feliz de uma forma absolutamente ridícula. São palavras vãs. Acredito que as digas com sinceridade mas a tua sinceridade não tem o mesmo significado. Tudo te passa rápido. Até o que me dizes. (...) Tenho saudades tuas. Escrevo para me lembrar que te esqueceste e erro em cada palavra. Parece que foi ontem que estive contigo. Mas não foi ontem. E a cada dia que passa ficamos mais distantes…

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

And dots connected, our hearts redirected
I’ve done all I can, all I can
I cannot correct this

And it’s strange to walk the corridors again
I know it’s never going to ever change


Panama - It's Not Over

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

timbre



                Lembro-me sempre das horas que passávamos a falar ao telefone. Todos os dias. Lembro-me de que quando não estávamos juntos substituíamos o contacto físico pela voz um do outro e chegava-nos. Se o meu dia estivesse mau, tu conseguias melhorá-lo e vice-versa. Lembro-me dessas horas com carinho. E melancolia. Melancolia porque essas horas já não existem. Tanto falámos que agora não falamos de todo. Os dias passam sem ouvir falar de ti ou sem falar contigo. Ainda me espanta esta minha capacidade em me deixar afectar por estas situações. Devia estar habituado a isto – devia – mas teimo em queimar os dedos com este tipo de pessoas. Então quando teimo em recordar a queimadura lembro-me das horas que passávamos a falar ao telefone. E sabes o pior de tudo? Já nem me lembro do som da tua voz…

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ghost waves



                Em ondas. Sempre. O tempo passa e quando menos espero sinto o embate tão forte como antes. De vez em vez deterioras a matéria rochosa com que me tento proteger e não sei como te parar. Neste meu outro ciclo vicioso procuro o teu embate porque a dor é algo que sempre me agradou. As tuas ondas são sempre as mais imponentes e o embate prolonga-se para além do meu autodomínio. Ainda não sei se a matéria rochosa vai aguentar, não sei, mas sei que as ondas são constantes. Demore o que demorar, voltam sempre. E isso é uma dor prazerosa – como voltar a casa.