Não
sei como aconteceu mas tudo se tornou pano de fundo. Tudo excepto tu. Enquanto a
maioria das pessoas não quer e evita encontrar objectos que representem
momentos de felicidade com os que perderam, eu contrario essa tendência. Eu preciso
de encontrar. Preciso de encontrar algo que me diga que foste real, que tudo o
que tivemos aconteceu mesmo, que não foi um qualquer sonho. E enquanto essa
busca dura, eu esqueço que não existes mais. Tenho um propósito. De uma forma
muito destorcida continuo em frente, passo a passo.
Mas
há um problema nisto tudo, sabes? É que quando finalmente encontro algo que
deixaste pelos cantos – uma blusa, uns calções, roupa interior, uma pen, um
caderno, um shampoo, ou seja lá o que for – eu apercebo-me do tempo que passou.
E pior, apercebo-me que passou tanto tempo que já nem consigo sentir o teu
cheiro em nenhuma das tuas coisas. Depois? Não sei. Não tenho propósito, não
tenho como evitar. Então, e por enquanto, eu continuo procurando-te pelos
cantos, evitando que te foste. Ignorando que levaste metade de tudo o que fui e
eu fiquei sem nada. Talvez, quem sabe, também me encontre nos vestígios que
procuro de ti…