castelo de cartas
Foi tudo uma consequência. Senti o nevoeiro cerrado, como num mar revolto, passar-me pela pele enquanto remava contra a maré. A madeira do pequeno barco em que me deixaste rangia. O cheiro salgado da tua maneira de ser trovejava sem dó ou piedade. O teu frio cortante desaba como um castelo de cartas sobre mim. Não havia som para além do constante eco oco do remar. Todos os cortes, cristalizados na epiderme, ardiam eternizados perante a escassez do que me acompanhava. E enquanto o isolamento me batia na cara como que uma lição, eu ia-me apagando a cada movimento dos remos. Não havia pontes que me levassem a ti, asas que te trouxessem de volta, nada. Mas foi tudo uma consequência. De toda a incerteza que era ter-te, o melhor que consegui foi construir estas muralhas, mergulhar para todos os vestígios e remar até que eles se formassem num novo conjunto de areias livre de ti. Ainda não sou capaz de te dizer se resultou mas espero sinceramente que me guardes como a única pessoa que conseguiu escapar a esse teu feitiço que enraizou em meio mundo. Não irei negar, no entanto, que enquanto eu existir serás sempre a maior parte do que fui. E essa será a única coisa que guardarei de ti enquanto remar para longe…
Um comentário:
'(...)mas espero sinceramente que me guardes como a única pessoa que conseguiu escapar a esse teu feitiço (...)' - Curti bués :D
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