quarta-feira, 12 de maio de 2010

Autocarro

Era sempre assim. Eu subia os pequenos degraus e entrava no autocarro carregado com o meu saco (igual ao teu) e a minha mochila e percorria aquele estreito corredor até chegar ao nosso lugar. Ignorava as vozes animadas e toda a agitação que me rodeava e, ao sentar-me, esperava por ti. O tempo abrandava e todos os segundos que demoravas a entrar no autocarro, transformavam-se em horas. Quando finalmente chegavas, instintivamente eu desocupava o teu lugar, que se encontrava com a minha mochila e o meu saco, e tu sentavas-te a meu lado falando-me de tudo o que te dava vontade, das horas que se tinham passado até nos termos encontrado, do quanto tinhas vontade de estar ali naquele momento. Metias música a tocar e comentavas o quando gostavas daquela ou de outra e o quanto te faziam pensar em mim. Eu comentava, um pouco sem reacção, e tu dizias ‘esta é a nossa música.’. Lembro-me que disseste esta frase tantas vezes que um dia, depois de a teres dito mais uma vez, disseste ‘Um dia fazemos um álbum com todas as músicas que já são nossas.’ e sorriste para mim como que pedindo aprovação. E eu sorri de volta, mais uma vez sem saber o que dizer, aliás, nunca soube. As viagens, por sua vez, eram curtas e tudo terminava demasiado rápido mesmo que fossemos para o sítio mais longínquo do mundo. Comandavas o tempo e eu seguia-te por entre as suas finas paredes em risco de quebra. Mas hoje, já não é assim. Mal entro num autocarro, qualquer um, eu sinto o meu coração apertar dentro do meu corpo. Apresso o passo, desvio o olhar do ‘nosso lugar’ e evito sentar-me perto dele. Consegues entender o que me fizeste? Simbolizas tempos de felicidade incomum e tudo o que me tiraste com a tua partida, ficou para me atormentar. São pequenos detalhes que me levam sempre a todos os lugares onde já estivemos juntos. E todos eles simbolizam o teu virar de costas a tudo o que éramos. Todos eles vivem por ti, todos eles me destroem.
M.S.

5 comentários:

Cat disse...

Nunca partilhei viagens de autocarro com ninguém. Não tive ninguém que me dissesse « esta é a nossa música » nem nunca esperei por ninguém em lugares marcados.
Mas como já te disse, quando acabei de ler isto, senti que andar de autocarro tinha sido das melhores coisas da minha vida. É o teu dom. Descreveres aos outros episódios de ti e fazeres com que quem os leia sinta-os na própria pele. E se houvesse uma lista de pessoas com "Os melhores dons de sempre", o teu nome andaria lá no topo.

P.S - Andar de autocarro faz-me doer o rabo :D

Jane Doe disse...

Há excepções sim, mas nos teus textos não. A tua unica excepção é a perfeição com que escreves. E amo ler este, como amei ler todos os outros.
« São pequenos detalhes que me levam sempre a todos os lugares onde já estivemos juntos. E todos eles simbolizam o teu virar de costas a tudo o que éramos. Todos eles vivem por ti, todos eles me destroem. » não preciso dizer mais nada :#

RuiQ disse...

Ontem tentei escrever algo tipo isto (não com autocarro) e não consegui. Agora venho aqui, leio isto e parece tão fácil...

Sempre o mesmo nível :D

-tânia disse...

Isto de novas tecnologias é muito bom, mas tem o seu lado mau, depois de mais de um mes em que o blog nao me deixava entrar no teu por "falta de permissao" parece que já dá,
o que eu perdi este tempo todo jesus *.*
É-S F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O :DD

Tatiana disse...

está lindooo!!!
Eu gosto tanto de andar de autocarro, q essa descrição pareceu-me algo de tão bom.