Muitos foram os dias que me fizeram cair, tentando que eu ficasse no chão, imóvel e agoniado pela dor que me atacava; mas este foi o dia em que eu não me consegui levantar. Caí, ridículo, coberto da única coisa que conseguia sentir: dor. Via o inchaço a crescer no meu pé enquanto a multidão se juntava para me acudir. Aquela era a pior dor da minha vida, pelo menos física. Deixei de ouvir o que me murmuravam e acenei afirmativamente a todas as perguntas que não escutei. Senti-me ser elevado do grande vazio que me encontrava e ser transportado para um banco, sem forças para lutar contra a dor. Cambaleei uma vez, tentado dar um passo. Aquele passo fez-me ver a realidade em que agora me encontrava. Naquele momento despedi-me dos meus sonhos. Sorri a todos e suavizei a situação. Repeti “Estou bem, isto passa.” apesar de saber que estava a mentir. Liguei para que me fossem buscar e esperei. Trouxeram-me gelo para diminuir o inchaço que tinha o controlo do meu pé, agora azul, e assisti ao derrube de tudo o que tinha criado até ali. Quando me tentei levantar não pedi ajuda mas prontamente um braço me levantou e ajudou, um braço que nunca esperei encontrar. Ajudou-me, em silêncio, enquanto eu me preparava para ir para casa. Quando chegaram para me levar, fui alvo de acusações que feriram mais ainda. Receberam um sorriso meu como resposta e, ao despedir-me da ajuda que até aquele ponto tinha feito o máximo, coxeei o mais rápido que consegui (sozinho, sem qualquer ombro pois o que eu queria não estava ali). O curto caminho para casa foi silencioso, felizmente. Cheguei e, como tinha feito anteriormente, coxeei o máximo que podia. Finalmente senti o conforto da preocupação verdadeira. Continuei a sorrir enquanto o meu pé era alvo de avaliações. A dor era insuportável. Queria despachar aquele dia. Deitar tudo fora. Comi (muito pouco), lavei os dentes, pedi (envergonhadamente) ajuda para me vestir e deitei-me. Quando a luz do meu quarto se apagou, eu chorei. Muito. Só naquela altura me dava conta de que a dor que sentia por dentro era semelhante à que provinha do meu corpo. Qualquer movimento causava uma paralisia excruciante vinda do meu pé.
Já passou muito tempo desde aquela noite, mas não há um único dia em que eu não trema de dor quando me levanto da cama. Aquele dia ditou o fim. Já não consigo sentir para além da dor. A música que me corre nas veias e fluía pelo meu corpo vê-se agora incapacitada, forçada a ser contrariada. O amor que tenho pelo meu desporto, pela minha segunda casa, pela minha antiga família, diminuiu vertiginosamente. Não posso ser eu. Não posso sonhar. E há dias em que mal posso andar. Foi este o dia em que me obriguei a deixar de sentir. A única coisa que ainda me conseguia fazer sorrir tinha sido tirada de mim sem que houvesse algo a ser feito e isso foi o suficiente. Pela última vez eu vi que sonhar era para outra pessoa que não eu. Perdi o meu escape, o que me tirava da realidade e me fazia sorrir. Os meros aplausos já não obtêm o antigo brilho nos olhos de agradecimento, e ter que os receber é um esforço que já não me enche de orgulho. Agora, cada vez que eu tento sonhar, a dor que sinto todos os dias traz-me de volta à realidade. E ainda não sei o que me dói mais…
‘(…) é uma pena. Tens tanto potencial. ‘ – 16.01.10 :)
2 comentários:
Perfeitão! Mais uma daquelas narrativas que falo.
Obviamente não vou dizer que sei o que isso é, porque não sei. Por isso mesmo, posso nem ter percebido o que querias dizer, mas aprendi que no desporto, o resultado interessa para quem vê, mas para quem o consegue interessa mais a história que está por trás.
«vi que sonhar era para outra pessoa que não eu»
Sonhar é para toda a gente, embora só as pessoas fúteis não se desiludam.
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Se é real ou não, o que escreves é magnifico, isso ninguém te tira, já tens a fã nº1, garanto-te :$
PERFEITO, mais uma vez.
P.S.: "Nunca deixes de sonhar, porque nesse dia deixarás de vivier" :)
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