Quando se passava pela parte de trás da casa era possível ver-se uma janela, que no meio das flores que enfeitavam o quintal, se distinguia. Não havia uma explicação lógica para o porquê de aquela janela ser mais que todas as que a rodeavam, simplesmente o era. Se alguém decidisse olhar fixamente, tentando decifrar o que guardava de tão obscuro aquela janela, não o conseguia. A escuridão que provinha dela era imensa e aos poucos trazia a noite para dentro dela.
Na casa de onde provinha a janela, vivia uma família. Nessa família, a comunicação era bastante importante e ainda mais escassa. Havia uma pessoa dessa família que nunca era incluída, mas a culpa era dela. Sem entender porquê os restantes familiares afastaram-se, e só a ignorância ficou como sua companhia. Reinava na casa, na sua divisão particular, perdurava durante horas até a sua altura de dormir.
Ouvindo os passos dele, a pessoa que estava no quarto de onde provinha a janela, vivia odiando-o secretamente. Torturado pelos passos que ouvia, pelas vozes que escutava. Essa pessoa por vezes chorava, mas não pelo rei da casa, por ela própria. Era um triste facto, uma história que nem todos conseguiriam entender. Aquela pessoa vivia desejando um silêncio a que ele se tinha acostumado e a escuridão que existia no quarto. Refugiava-se nos abraços da última pessoa da família e depositava a felicidade no seu ombro.
Era assim que vivia aquela família, nem sempre alegres, mas nunca infelizes de si. Habituados ao que se tornaram. E então um quarto membro decidiu abrir a porta de casa, trazendo um sorriso que em breve iria desaparecer. Foi então que sem aguentar mais, a porta do quarto de onde provinha a janela foi fechada e lá dentro a pessoa quis fugir. Não iria aguentar uma nova perda, uma nova derrota, um novo adeus. Sem querer escutar, olhava sem ver. Aprendia agora uma nova forma de existir, a de esperar pelo inevitável . Quis esconder-se no seu mundo, mas não chegou a encontrá-lo.
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