terça-feira, 3 de novembro de 2026

bloco de notas

Lá fora, não sei de ti.

Se fechar os olhos, o teu perfume ainda me eriça os pelos. Se ouvir com atenção, o som do teu batimento cardíaco ainda ecoa pelo meu quarto. Se me concentrar, ainda sinto a tua língua na minha pele.

Ainda assim, não sei de ti. Ou de mim.

Nestes dias, em que tudo está encoberto, nublado como eu, acabo por te querer junto a mim.

A doer-me deliciosamente.

Mas fui eu quem te abriu a porta. Os lençóis ainda têm restos de ti, mas não sou dono das tuas partes – mesmo que as tenha destruído em busca de um qualquer tratamento.

Ali, éramos nós. Fingindo que, naqueles nossos momentos, eu estava curado.  

Mas não és cola e não me consegues agrupar os pedaços partidos. Acho que ninguém consegue. Já não.

Por isso, enveneno a nossa história.

Ignoro-nos, no chão da varanda da minha cozinha, sentados no escuro, tocando um no outro, ao som da televisão dos vizinhos do outro lado da rua.

Sombreio cada passo até ti.

Finjo que, nos dias de praia, não adormecias no meu colo, respirando a paz de uma tarde quente de primavera, como que no conforto da nossa casa.

Apago todos os momentos.

Esqueço-me de ti, no meio da multidão, mão com mão, trocando diálogos completos através de olhares e sorrisos adolescentes.

Deixo de parte as partes boas.

Não olho mais para o calor que sentia dentro de ti, o quão aconchegante era o teu interior, num encaixe perversamente doce.  

É mais fácil assim, diria eu. Fingir que não foi. Que não te tive. Que não foste minha e eu teu. Que a vida não aconteceu durante todo esse tempo.

Como que pular um ou dois capítulos de um livro e avançar.

Apenas continuar.

Ir.

Mesmo que eu não saiba onde fiquei, onde estou.

Sei lá… acho que, há muito tempo atrás, algo deixou de funcionar em mim.