Lá fora, não sei de ti.
Se fechar os olhos, o teu perfume
ainda me eriça os pelos. Se ouvir com atenção, o som do teu batimento cardíaco
ainda ecoa pelo meu quarto. Se me concentrar, ainda sinto a tua língua na minha
pele.
Ainda assim, não sei de ti. Ou de
mim.
Nestes dias, em que tudo está
encoberto, nublado como eu, acabo por te querer junto a mim.
A doer-me deliciosamente.
Mas fui eu quem te abriu a porta.
Os lençóis ainda têm restos de ti, mas não sou dono das tuas partes – mesmo que
as tenha destruído em busca de um qualquer tratamento.
Ali, éramos nós. Fingindo que, naqueles nossos momentos, eu estava curado.
Mas não és cola e não me consegues agrupar os pedaços partidos. Acho que ninguém consegue. Já não.
Por isso, enveneno a nossa
história.
Ignoro-nos, no chão da varanda da
minha cozinha, sentados no escuro, tocando um no outro, ao som da televisão dos
vizinhos do outro lado da rua.
Sombreio cada passo até ti.
Finjo que, nos dias de praia, não
adormecias no meu colo, respirando a paz de uma tarde quente de primavera, como
que no conforto da nossa casa.
Apago todos os momentos.
Esqueço-me de ti, no meio da
multidão, mão com mão, trocando diálogos completos através de olhares e
sorrisos adolescentes.
Deixo de parte as partes boas.
Não olho mais para o calor que
sentia dentro de ti, o quão aconchegante era o teu interior, num encaixe perversamente
doce.
É mais fácil assim, diria eu. Fingir
que não foi. Que não te tive. Que não foste minha e eu teu. Que a vida não aconteceu
durante todo esse tempo.
Como que pular um ou dois
capítulos de um livro e avançar.
Apenas continuar.
Ir.
Mesmo que eu não saiba onde
fiquei, onde estou.
Sei lá… acho que, há muito tempo
atrás, algo deixou de funcionar em mim.