segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

pouco (em segredo)

Estamos nisto há tanto tempo. Duas mãos cheias e mais uma de sobra. Duas vidas entrelaçadas que, desde cedo, se juntaram e misturaram. Dou por mim a pensar – foi sempre assim?

Defendi-nos. Romantizei-nos. Escondi-nos. Sob coação, entreguei-te, ainda mais do que tinha.

Mais.

Do.

Que.

Tinha. 

Mais do que alguma vez foi meu. E mesmo nas minhas falhas, nas minhas tantas falhas, eu dei tudo. Mesmo assim, nunca sendo suficiente. Sempre descartável.

Tanto escrevi sobre isto, ao longo destes anos, mas só nestes momentos em que me sinto o lixo que atiras para o chão, é que compreendo – foi mesmo sempre, sempre assim.

A tua luz foi sempre tão intensa que não me apercebi da sombra que provocou em mim. Dentro de mim. Deus sabe que tento trabalhar em mim e nos meus problemas. Deus sabe que falho todos os dias, mas eu gostava de ser mais. Suficiente para alguém, uma vez que, para ti, claramente, não o sou. Sou este retalho de carne, pedaços que arranquei para te entregar na esperança de que fosse valorizado.

Nesta nossa história, demasiado tóxica para admitir em voz alta, já te contei a pessoas que já não estão mais. Contei-lhes sobre eu e tu; sobre a felicidade que sinto contigo; sobre o aborrecimento que sou para ti; sobre o quanto eu me rio contigo; da listagem de ações que estou proibido de fazer; sobre o facto de a tua gargalhada ser a minha música favorita; sobre as chantagens que fizeste para teu divertimento; Etc.

Contei-lhes com um sorriso de orgulho.

Ninguém sorriu. Não chega. Não foi interessante ou criativo. Ficou aquém, como eu.

Não gosto de mim, mas esperei que, ao fim deste tempo todo, tu gostasses talvez um pouco. Errei, outra vez. Mea culpa. Talvez mereça melhor que isto? Ou talvez tenha exatamente aquilo que mereço…

Ingenuamente, esqueci-me do que sempre soube sobre o meu fim – será só meu.

Só eu.