Estás a rir do quê? Perguntaste-me, Estou a dizer a verdade.
Sim, respondi-te, acredito
que sim. Não deixa de ser irónico.
De que forma? Estou a dizer-te que te sinto tão longe de mim que, a
qualquer lado que vá, procuro por ti. E tu? Respiras fundo, tu ris.
E não é irónico? Retorqui. Dizes
que estou longe e que procuras por mim, mas torna-se irónico.
Como assim? Exasperação. Não estou
a perceber. A paciência a esgotar-se-te.
Como me podes procurar se foste tu quem me abandonou? Se foste tu quem
me deixou aqui, neste lugar, tão longe de ti? Como podes pensar em mim, em todo
o lado, se, para ti, nem sou o chão que pisas? Cuspi. Diz-me, genuinamente.
Respondeste em silêncio, mas não aguardei
resposta.
Vês? Irónico, não é? Acaba por ser bonito, acho. Eu procurei tanto por
ti, mesmo sabendo onde estavas.
Onde? Perguntaste.
Por todo o lado. Em todo o lado. Paro. Em todo o lado menos comigo.
Estás a ser injusto.
Não, não estou. E sabes o pior? Continuei. Respirei. Sabia de ti e, mesmo sozinho, era-o menos
sem ti. Estava sozinho, mas estava-o especialmente contigo.
Dor aglomera-se no canto do teu
olho.
Gostava que tivesse sido diferente. Confessas, em voz baixinha,
como que só para ti.
Eu sei. Concordei.
Estamos perdidos, não estamos? A voz cada vez mais baixa, como um
murmúrio.
Estamos, mas, talvez, agora, nos encontremos.
Como?
Estamos finalmente desatados um do outro. Podemos ser quem quisermos. Podemos,
até, quem sabe, um dia, ser felizes.