Olhando para trás, eu sempre
soube.
Enquanto me passavas os dedos
pelas costas, arrepiando-me a parte de trás do pescoço, eu costumava pensar
nisso. Eram tempos simples, para dizer a verdade. Só eu e tu.
Eu imaginava o que seria de nós e
tu sonhavas pelos dois.
Entre o que fomos, nunca me
conseguiste curar. As discussões pouco existiam, comunicávamos em silêncios
planeados. Eu tentei melhorar. Eu tentei mas acabei por te fechar a porta. Disse-te
“Não há mais nada a dizer. É o que somos, o que fomos.” e tu, num momento de
franca impiedade, retorquíste “não fomos grande coisa, pois não?” antes de me
virares as costas. E quem diria? Tinhas razão. Sempre tiveste. Mas uma terceira
pessoa acaba sempre por ser demais, não é? Especialmente quando a fizemos.
Fizemos. Terminámos. E pagámos
por isso.
Fomos o que fomos. Nos tempos em
que o fomos, éramos eternos gigantes. Sozinhos, na nossa ilha, adormecendo e
acordando tarde. Trocámos o dia pela noite e construímos uma rotina destrutiva.
Não estávamos preparados, pois não?
Continuo a dizer isto a mim mesmo, uma e outra vez. Eu, eu certamente não o
estava. Mas, e talvez seja esta a maior dúvida da minha vida, mas e se tu
estivesses pelos dois?
Não fui só eu o culpado. Fui eu,
tu e o nosso rebento. Aquele que escolhemos não manter. Aquele que morreu
connosco. Ditou um fim que, naquelas noites em que me passavas os dedos pelas
costas, arrepiando-me a parte de trás do pescoço, eu imaginava ser por minha
causa.
Agora, quando dou por mim, quase
digo o teu nome ao chamar por alguém.
Mas tu já não existes. Nem tu. Nem
ele. Nem eu.