quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

3. (perder)



- Continuas a perder-me.
A tua voz não tremeu quando o disseste.
O quarto estava escuro. Conseguia sentir-te deitada, no teu lado da cama, ambos vestidos, fixando sem ver. O silêncio era quebrado apenas pela tua respiração. Estava frio – tem estado frio.
- Quem te disse que quero que fiques?
Olhaste para mim. Mesmo sem te ver, conseguia saber a tua linha de pensamento. Demasiado composta para elevar a voz, procuravas a pergunta certeira para me magoar da mesma forma que eu tinha acabado de o fazer.
Demoraste.
- O que queres, então?
Rancorosa. Eras sempre sublime na forma em que atacavas a minha insegurança. Apenas eu saberia. Apenas nós. Se ainda fossemos nós.
- Não sei.
Esta era a verdade. Eu não sabia o que fazer comigo mesmo. A ridícula ideia de partilhar uma vida a dois nunca tinha estado nos meus planos. Mas eu nunca to escondi. Aliás a nossa primeira discussão tinha sido precisamente porque um dia te confidenciei que o meu objetivo de vida era não precisar de ninguém. E após todo este tempo, ainda aqui estávamos. Eu sem saber o que ser. Tu julgando-me pelo que não sou.
- Não sabes?
Cuspiste mais uma vez. Desta vez a tua voz tremeu. Estavas num ponto de rutura. E eu não te podia culpar. Sem forças para mais qualquer coisa e sem qualquer vontade de dar continuidade àquela luta, soltei um:
- Não.
Sem aviso, levantaste-te, dirigiste-te a mim e bateste a tua mão na minha cara. Violenta. Seca.
- És um cobarde! – Disseste. Ainda serena. Ainda composta.
Não respondi. Não reagi. A verdade é que aquela atitude tinha sido o gesto mais surpreendente de toda esta história que ambos estragámos. E quase que to quis dizer. Mas não. Permaneci em silêncio. Sabia que ias quebrar. Tu só querias uma reação. Eu só queria que te calasses.
- Pois. Mas eu sei o que quero. E não é isto. – Continuaste perante a minha indiferença.
- Então porque ficas?Xeque, pensei. Tudo isto era um jogo que eu estava prestes a vencer. Sem qualquer prémio ou louvor.
Ficaste em silêncio. Não teres resposta custava-te. Pior ainda era saberes o quão dolorosa seria a resposta que estavas prestes a dar.
- Não sei. – Sussurraste. Derrotada. Patética.
Não sei até que ponto nos destruímos. Nem compreendo porque o continuamos a fazer. Mas aquele era o fim. Um fim.
- Então diz-me: Qual de nós é o maior cobarde?
Xeque-mate.