São
só paredes. O que antes me assustava, hoje falha-me. Não me protegem. Não são
um escudo ou uma camada mais resistente de pele. São cimento. Pó. Quase que as
imagino como se fossem as cinzas de tudo o que perdi. Já não impedem os gritos,
já não me trazem o silêncio de outrora. Mas, apesar disso, elas nunca falham em
relembrar-me do quão sozinho estou. Assistiram a tanta dor que a retribuem em
eco.
E
eu ouço e ouço. Deixei de falar. Deixei de falar porque falar significa dizer
que te perdi e ainda não estou preparado para acreditar nisso – o doce sabor da
negação sempre correu forte nas minhas veias. Cristalizou em mim que sempre
sorriu perante a dor. E não há parede que impeça isso. Não há parede que me
proteja da tua ausência. Aliás, só a intensifica. Para onde ir? Não estás em
lado algum. Talvez deva entupir estas paredes com gemidos de alguém que não tu.
Talvez deva fazê-lo e assim tu desistas de mim. Mas infelizmente, já se passaram
muitos gemidos sem que nada mudasse realmente. Apenas a dor continua.
Estas
paredes continuam a ser só paredes e a tua ausência continua por preencher. Admito
que sem ti não sei onde fica a minha casa e me sinto perdido. E tu ainda és o
meu mapa.