sábado, 21 de novembro de 2015

mechanical



O meu passo é acelerado. Quero despachar isto.

Ainda me lembro da primeira vez que fui ter contigo. Estava tão descontraído e certo do que iria acontecer. Desde então o tempo passou e trouxe com ele a escuridão precoce do inverno. A lua já me afaga o cabelo e o vento maltrata a minha face. Já te consigo ver à minha espera na porta do teu prédio. Como a rua está deserta cumprimento-te com um beijo – mecânico e frio – e digo-te que estou com pressa. Já não demora muito para estar dentro de ti. Dois lances de escada depois, encosto-te à parede e a tua mão procura-me.

No início pensei que fosse para ti como é para mim. Mas depois de todas as vezes que te fodi acho que confundiste as coisas. E eu devia saber melhor que isto. Não é a primeira vez que me acontece. Mas e então? Não sou eu quem sai magoado. Já é tarde demais para isso.

Agora estás de joelhos e a tua boca é quente. E eu sou egoísta. Quero-te naquele momento e chega. Não tenho qualquer paciência para as tuas mensagens ou conversas fofas. Aqui e agora chega-me. E não devia ser assim. Não devia procurar-te para aliviar a minha dor mas agora estou entre as tuas pernas e nada me sabe melhor que isto. Então eu continuo. Egoísmo. Só quero o teu prazer. Ou o de alguém.

Dizes-me para me vir dentro de ti. E sinceramente nem sei que importância tem isso. Nunca te perguntei, nunca me interessei. Dou-te um seco “não” em troca dos teus gemidos abafados e quando me venho para o chão dizes-me que depois o vais limpar.

Puxo as calças para cima e tento pentear-me. Não consigo olhar mais para ti. Penso que aquele momento vai durar mais mas a minha felicidade sempre teve tempo contado. Digo que tenho que me ir embora, invento uma desculpa qualquer e dizes para te mandar mensagem. Desço as escadas fingindo pressa e saio do prédio.

Não resulta mas eu continuo a tentar. És mais uma, mais um corpo que me distrai da minha solidão. Um corpo que me faz esquecer do que me tornei. Estou estragado. Mas entre suor e gemidos quase que me sinto em casa. Mas eu já não tenho casa, não é? Estou perdido.