Eu
dizia-te – sem falar para que não me ouvisses – que eramos aquilo e pouco mais.
Eu não sabia como te ter. Tinha-te a pouco e pouco. Ali na minha cama, nus sobre
os lençóis suados, prendendo sentimentos nas paredes pintadas de branco. Eu não
te fazia bem e tu não me eras suficiente. Quando os teus braços me alcançavam e
os teus lábios diziam as boas noites nos meus, eu perguntava-me sempre por quanto
mais tempo irias ficar. Na madrugada tardia, quando te via sair do quarto,
arrependia-me. Tentava apagar o teu cheiro do meu corpo para não te recordar
mas falhava. Querendo ou não, tu começavas a mudar-me. Comecei a suspeitar, sem
nunca te dizer, que aquele “aquilo e pouco mais” era até demais. E que entre as
idas e vindas, as minhas fugas e os meus regressos, eu preferia ficar.
Nunca
te disse. E sabes porquê? Porque eu não te fazia bem e tu não me eras
suficiente. Eu sabia que a imagem que tinha de ti não espelhava a realidade. A calma
que transmitias quando adormecias com a cabeça no meu peito era cansaço e
repouso. Só. Eu não sabia como te ter. Tu revelavas o pior de mim e eu fracassava
em mostrar o melhor de ti. E de propósito esqueci-me de te dizer que entre o ir
e vir, eu tinha escolhido ficar.
O
nosso orgulho fingiu até ao fim. E este foi o resultado – um quase-amor que
cicatrizou tão cruelmente a alma que partilhamos. Agora é tarde.