quarta-feira, 30 de outubro de 2013

pele



                A minha pele sofre por mim num murmúrio silencioso. Vejo-a marcada até à exaustão e não consigo evitar ficar triste por ela. Se ela falasse, iria pedir-me para parar de repetir os mesmos erros e as mesmas pessoas. Diria que o espaço para cicatrizes está a ficar curto. Contaria que tem frio e não sente calor de parte alguma. Mas que sei eu? Preveniu-me que assim seria e mesmo assim não percebi que nada de bom viria de tão doce semelhança. Agora vejo mais uma marca na carne. A ferida ainda exposta já não sangra mas dói. E dói tanto hoje quanto ontem.

domingo, 27 de outubro de 2013

other side



                No outro dia, quando me disseste que gostavas que eu me abrisse contigo, notei que me conhecias mais do que eu pensava. Mas de seguida quando ficaste ofendido por pensar que não confiava em ti, deste um passo atrás. Não te menti. Gostava que soubesses que não foste a primeira pessoa a desejá-lo ou a perguntar o que eu tenho. Gostava que percebesses que quando me perguntam o que tenho e respondo que não tenho nada, é literal. Sinto que não tenho nada. Nada nem ninguém. E é isso o que tenho. Um nada literal que me corre no peito e me deixa assim com a sensação desesperada de vazio.
                Eu sei o que irias dizer. Mas tu não sabes o que é tentar e falhar. Tu nunca saberás isso e ainda bem. Espero que continues a conseguir mesmo sem tentar porque o mereces.
 No entanto eu só gostava que entendesses que confio em ti, dentro do possível, e que não te menti. E se algum dia entenderes que o “nada” é a resposta mais verdadeira que te posso dar, me consigas explicar o porquê de assim o ser. Porque aparentemente, embora não me conheças na totalidade, estás quase lá. Pode ser que tu tenhas uma outra resposta que não a minha.

domingo, 20 de outubro de 2013

we move lightly



                Uma coisa consigo escrever sobre ti: metes-me medo. Pareces deixar-me coberto de cicatrizes mas mesmo assim eu não paro. Não sei para onde me levas mas continuo a ir, cegamente. Não te trato como uma qualquer e talvez merecesses que assim o fosse. E isso mete-me medo. Temos esta coisa, que não sei explicar bem, de nos encontrar por muito tempo que passe e sermos o mesmo de sempre. Como se nada se tivesse passado antes. E também isso me mete medo. Porque eu sou mau, directo e frio. E contigo, quando o sou, quando sou o que sou, eu tento evitar sê-lo.
                Acho que somos um ciclo. Tudo volta a isto. Movemo-nos levemente entre outras pessoas, outros lugares, e encontramo-nos. Evitamos o que sentimos porque não seria fácil admitir o que quer que seja que existe entre nós e repetimo-lo vezes sem conta.
                Existem, claro, momentos em que falamos de “nós” como se isso fosse uma realidade. Tu falas dos ciúmes e eu concordo. Eu digo que te quero aqui e tu dizes sentir o mesmo. Ambos provocamo-nos e ambos pedimos para parar. Mas não passa disso. Não sei no que nos iríamos meter. E isso mete-me medo. Quase tanto medo como quando eu digo que és minha e não sei se realmente é essa a verdade.
                Tu tens as tuas pessoas, eu tenho as minhas. E quando estou com outras pessoas quase que penso que consigo não te ter na minha vida. Isso é uma mentira que tento dizer a mim mesmo, claro. Somos o pensamento que dois cérebros partilham. Como é que alguém pode fugir disso? Como é que eu posso fugir de ti?
Mas acho que o que me deixa realmente apavorado, é que embora as minhas palavras estejam bloqueadas, eu tenha enchido uma página inteira – quer elas sejam boas ou más – só pelo simples facto de as teres chamado.
E o que é que isso diz sobre ti? Ou pior, sobre mim?

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

disgust.



                São só palavras, digo para mim mesmo. São só palavras carregadas de acusações e de desapontamento. Não me podem afectar, não me conseguem atingir. Mas essas palavras são acompanhadas por olhares molhados de repulsa. Cospem a dor na minha cara e não temem. Eu ouço-as com atenção, nunca antes pensei que as pudesse ouvir, e enquanto dentro da minha cabeça o eco da sua simplicidade grita eu tento ofuscar a pergunta que ressalta no meio destas: porquê que sinto uma dor dilacerante dentro de mim se estas não me conseguem afectar; não me conseguem atingir?
                Esqueço-me sempre que as palavras formam frases e as frases cortam que nem faca. Especialmente quando são atiradas da tua boca.