sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

trust issues. - part III



                Vejo-te na minha cama. Não pensei que isto se repetisse mas agora que te vejo de pernas para o ar, olhando-me com aquele sorriso tão teu, não sei como parar. Quando te abri a porta não soube que ia ser assim. Mesmo quando quase senti o tempo voltar para trás pensei que ia ser estranho e desconfortável. No entanto nada do que se passou depois foi difícil. Ainda te senti de forma maquinal. Não te tornaste mais difícil, pelo contrário. És-me cada vez mais fácil e nem devia estar a fazer-te isto. Mas aqui estás tu depois de toda a minha falta de promessas e ausência de sentimentos, totalmente minha, dizendo-me para chegar mais perto.
                Foi-me fácil entrar em ti como o fiz inúmeras vezes antes. Soube bem. Redescobrir os sinais do teu corpo, o cheiro que marcou os meus lençóis, os movimentos e os teus pequenos talentos, o sentir das tuas unhas rasgando-me a pele das costas enquanto eu abusava do teu prazer e entregava-te todas as minhas frustrações. Foi um hábito. E quando terminou, sem qualquer novidade, adiei a estranha despedida e disse-te que tinha coisas combinadas. Tu já sabias que seria assim. Olhaste-me antes de sair do quarto, em bicos de pés para que não te ouvissem sair, e disseste baixinho que nunca mais ias ser a mesma. Culpaste-me por isso e saíste sem mais uma palavra.
                Deitado na cama, ouvi a porta da rua fechar e só então levantei-me para me vestir. Tentei pensar nas tuas palavras mas não por muito tempo. Tinha coisas para fazer, outros sítios para estar, pessoas mais importantes para falar e ter a minha atenção. Eu sabia que irias voltar. E até lá bem podia viver sem te lembrar. 

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