Enquanto o relógio se precipitava para as duas horas da manhã, a casa estava silenciosa mas inquieta, num murmúrio desconcertado e paciente. Assim que a notícia chegou fui para o quintal e sentei-me no chão olhando para o céu costurado de pontos luminosos. Tentei pensar em nada com medo de me magoar mas não foi necessário. Conseguia sentir algo a abandonar-me, deixando o meu corpo vazio e esquecendo-me para sempre. Mas, apesar disso, estava tranquilo como se nada fosse. A minha cadela empurrava o focinho contra os meus braços e mãos e num movimento maquinal afaguei-lhe os pelos na esperança de a acalmar. Nunca uma noite tinha tido aquele cheiro – cheirava a despedidas. Ouvi a minha mãe a chamar-me, numa voz baixa e rouca de quem tinha estado a chorar, para dentro de casa. Mirava-me junto à porta com o rosto carregado de preocupação. Disse-lhe que estava bem, disse-lhe que já ia para casa, dei-lhe um sorriso vago e voltei a enfrentar o céu. Não sei ao certo em que pensei durante aquele tempo, muito ou pouco, que me deixei ficar. Quando voltei para dentro, fechei a porta com leveza e percorri o som dos meus passos e o respirar pesado da casa. No meu quarto estava um forno infernal ou assim suponho. Li a tua despedida e escrevi a minha. Consciente de que nunca mais te ia ver, adormeci tudo o que havia de ti e solidifiquei ainda mais.
Um ano passou. E não ouvi a tua voz, não vi as tuas mãos calejadas, não te vi sentado naquela mesa que tens no quintal brincando com os cães ou lendo o jornal, não ri das coisas que dizias quando eu saia de casa e das perguntas sem nexo, não te vi entrando na minha cozinha pedindo um ingrediente qualquer para cozinhares, não te vi no carro remexendo as tuas chaves de casa ou andando pelas ruas da cidade com as mãos atrás das costas. Não te vi nem te sonhei quando fechei os olhos durante estes 365 dias. Mas nunca te esqueci. Espero que consigas perdoar-me quando perceberes que só evitei a tua ausência porque ela me magoava. Não antevi que o cheiro daquela noite durasse tanto tempo e não consegui ignorá-lo embora tentasse. Só tu sabes o quando me doía por dentro quando falava em ti ou em algo teu, só tu. E agora que conheces a face fria que existe em mim, que empurra os sentimentos para não os sentir e que sorri indiferença no abismo da tristeza, sabes que não consigo mudar. Nesta batalha silenciosa não há vencedores, disso podes crer, e peço-te para que não vejas esta tentativa de ignorar como desistência. Os meus dias nunca serão o mesmo sem ti mesmo que eu o tente ignorar com todas as minhas forças.
Escrever tornou-se recordar e recordar dói. Não notes a minha fraqueza revestida de coragem e entende que não posso recordar-te. As minhas palavras nunca te farão voltar a casa, por isso ouve o meu silêncio diário e o que ele te diz… – Tenho saudades tuas, avô.