Ainda ontem, enrolado nos lençóis, quando conversávamos pela infinita vez, disse-te que ainda era a mesma pessoa de antes e que mantinha os mesmo hábitos. Disse-te que por muito que tivesse mudado continuava a ser a pessoa que tinhas conhecido. O meu humor pela manhã continuava a ser terrível, a fome constante ainda se mantinha, a falta de paciência para pessoas infantis, etc. Estava escuro e embora eu não te conseguisse ver a cara senti-te o sorriso. A ironia era deliciosa, bem sei – como podia eu não ter paciência para pessoas infantis quando me encontrava com a pessoa mais infantil do planeta? Ficámos em silêncio por uns instantes, reflectindo as palavras e o silêncio. Aquela conversa parecia-me antiga como de outros tempos, entrelaçada com outro local e outras pessoas que não nós. Quebrei o silêncio dizendo, porque na verdade, tinha sido eu a provocar aquele constrangedor momento:
- Tu sabes como sou. – Desejando que conseguisses ler nas entrelinhas. Silêncio. Esperei por uma resposta mas quando ela não chegou, dei por mim a pensar que já tivesses adormecido. Virei-me de costas para ti e fechei os olhos.
- Conheço-te como a palma da minha mão. – Disseste alcançando a minha. Foi a tua forma de calar o silêncio que me fez sorrir e adormecer daquela forma tão suave. Foi a tua respiração constante ao meu ouvido que me fez sonhar um mundo impossível. Foi a tua presença, tão inconstante, que me fez acordar como se tivesse aberto os olhos para o dia mais bonito de sempre. E apesar de não estares a meu lado no dia seguinte, não pude deixar de imaginar o quão perfeita a minha vida teria sido se eu não te tivesse deixado partir.
M.S.
