terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

your ghost

O teu cheiro e as memórias estão por todo o lado. Nas paredes que toco enquanto vou percorrendo o corredor; na moldura com a tua fotografia sobre a mesa onde pões a chave de casa; na cozinha onde tantas vezes me perguntaste se tinha fome; nos sofás onde vimos inúmeros filmes; no telefone em que me ligaste sempre que quiseste… Aguento a ânsia de gritar por ti e caminho, sem acender a luz, sentindo com os dedos a parede despida, até chegar ao teu quarto. A porta está fechada, como sempre. Abro-a. Abro-a e vejo-me a cair. O chão está frio mas não tenho forças para me levantar. Vejo-te na cama, respirando pesadamente, de boca ligeiramente aberta. O teu cheiro é tão forte. E a dor que ele me causa também. É avassalador. Não conseguiria sair dali nem mesmo que quisesse. Sinto a escuridão tocar-te na cara e respiro calmamente a dor que me consome. Não me consigo mover. Esta sensação vagueia sobre mim como o teu fantasma. Quieta. Olho para ti uma última vez como que tentando criar forças para me levantar – olho para ti como se fosse a última vez. Despeço-me em silêncio, da mesma forma que sempre o fiz e, levantando-me, caminho de volta ao corredor. Em instantes consigo ver todos os melhores momentos da minha vida passarem por mim e, sem surpresa, noto que estiveste presente na maior parte deles. Tudo o que conheci tornou-se em tanto que desconheço, numa sombra. Embora caminhes comigo, mostrando-me a saída, dizes-me que nunca me irás abandonar. E eu que só queria acabar com toda a tua perenidade perco a coragem de te mandar embora. Ficas e ficas. Vagueando sobre a minha pele. Assombrando os meus sonhos e escutando os ecos do que já não te consigo dizer…
M.S.

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