sexta-feira, 30 de julho de 2010

km

Eu conseguia sentir o teu cheiro no ar. Estava a milhares de quilómetros de ti e mesmo assim o vento quente trazia-me de volta o teu aroma forte e adocicado. Sabia que não estavas ali, e nem seria possível. Para além da carrinha de caixa aberta onde me encontrava e os longos cabos eléctricos que ladeavam e seguiam a estrada, não havia a mínima prova de existência de humanidade. Eu não estava sozinho, não, mas no meio de todo aquele nada só sentia a tua companhia. Tapei o sol com a mão e tentei olhar em frente. A estrada era interminável, um gigante traço de alcatrão que partia ao meio as areias desérticas que me torturavam. Atravessando toda aquela ausência, respirei fundo aquele ar quente com trago de ti. O sol queimava-me a pele do braço que estava sobre a janela aberta da carrinha, as suas mãos abrasadoras tocavam-me e pelo espelho conseguia vê-las penetrar a minha alma seca já de si. Procurei em vão, nos bancos traseiros, uma garrafa de água para matar a minha sede mas só restavam os recipientes vazios. Enquanto sentia o vento beijar-me a face suada apercebi-me que estava na mesma estrada desde que o sol havia nascido e não tinha pregado olho a noite inteira. Fechei os olhos e sem desejar sonhar, tentei adormecer o corpo amolecido pelo calor. Então, passadas horas que se assemelharam a escassos segundos, uma mão pousou sobre o meu ombro e senti o meu corpo a arder. Nisto abri os olhos para ver o que já tinha sentido. Não eras tu que me tocavas. E eu não conseguia impedir aquela vontade de rejeitar qualquer outro toque. Não conseguia e ainda não consigo. Mesmo estando a milhares de quilómetros de ti…

M.S.; 29 de Julho de 2010