segunda-feira, 26 de abril de 2010

bus

Enquanto estou a ouvir música e a olhar para a lua, o cansaço cai sobre mim. O dia foi tão longo que agora só quero que ele acabe. Foram tantas horas sentado neste banco que já não encontro uma posição confortável. A luz que me ilumina a cara é fraca e, lá fora, a fraca luz da lua ilumina os quilómetros que passam devagar por mim. As pessoas finalmente atingiram o silêncio e agora dormem ou estão, tal como eu, sentados nos seus pensamentos. Ou não. Eu não penso em nada. Ouço. Preencho o cérebro de música e espero que ela esvazie as memórias que agora me atingem como flexas. Reconheço a cabeça que acabou de se apoiar na minha coxa e instintivamente ponho a mão no seu braço, acariciando, sem lógica ou sentido. A música termina e volto a pôr a mesma faixa. Neste momento a música acalma-me e permite-me a ausência de pensamentos. Sinto a coxa molhada e logo entendo que a cabeça que reconheçi está a chorar. Mas eu não sinto. Tento procurar algo em mim mas é em vão. O cansaço, a música, este autocarro não mo permitem. Estou tão cansado. A música fica em mim e eu inconscientemente não me permito sentir. Fico assim até quando aquela cabeça me pede desculpa e eu respondo com um meio sorriso de quem diz 'Não faz mal.'. E não faz mesmo. Neste momento o mundo podia cair e eu ficaria ali. Perdido naquele autocarro que representa tantos outros que me atormentam profundamente. Só quero chegar a casa, só quero dormir. Quero apagar este cansaço. E os quilómetros passam tão devagar por mim. Quero sair daqui.

2 comentários:

RuiQ disse...

Dos melhores! :D (se calhar já disse isso muitas vezes, mas a lista "os melhores" por aqui é grande).

Grande apatia. Já senti.

Muita coisa se passa num autocarro, nem que seja numa viagem pequena, e as melhores memórias que tenho em autocarros são mesmo relativas a esta personagem do meu texto, que claro sabes quem é :P

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Vanessa disse...

Ganda texto!