A noite estava particularmente gelada quando saí de casa. A cacimba acomodava-se em cima dos carros, as ruas por onde eu passava eram estreitas e livres de luz. Apertei o casaco até ao topo e ajeitei o cachecol que por pouco não me enforcava, sentindo as minhas mãos frias tocando-me levemente no pescoço. Sabia que estava frio pois conseguia vê-lo na minha respiração acelerada, mas não o sentia. Caminhava rapidamente sem um destino definido enquanto olhava para a lua que ofuscava as poucas estrelas que eram visíveis naquela noite. O meu telefone começou a vibrar, mas não o quis ver. Não haviam palavras que me curassem a tristeza que sentia. Estava frio, muito. Pontapeei uma pedra que apareceu no meu caminho e senti a dor no dedo do pé mas não me queixei. Sentia muito pior naquele instante. Mais que aquela dor, mais que aquele frio. Nada mais importava. O mercúrio apoderou-se de mim de uma forma completa apesar de o meu sangue pulsar num furioso compasso. As tuas palavras não me diziam nada, finalmente. Eras pó, uma cinza que quis jogar ao vento e deixar à mercê do seu destino. Naquela noite particularmente gelada deixaste de ser o que quer que tenhas sido. Deixaste saudades mas não (me) deixaste arrependimento. És livre.
5 comentários:
Tão, tão, tão bem narrado. Escreve um livro :P
genial!*
fazes-me vir aqui todos os dias x)
Se um dia quiseres desistir de escrever, lembra-me de te espancar, pra que te arrependas e continues a brindar-nos com estas magnificas palavras :$
assim como tu és livre e podes voar *
Desculpa a invasão !
beijinhoo
Postar um comentário