quinta-feira, 22 de agosto de 2019

contaminated.


Deixaste-me habitar em ti. Sem espalhar objectos e deixando o que sou à porta.
Mesmo assim, confiante de que não notarias, comecei por levar pedaços de mim, numa mala esfarrapada, um pouco desfeita. Mas só isso. Nunca me deixaste mudar para lá, para ti. A minha morada continuava a ser a mesma mas, de vez em quando, voltava a casa.
Pedia-te, em silêncio, que acabasses com a minha agonia e me deixasses respirar novamente. Regressar dava-me conforto. Como deitar a cabeça, na almofada, ao fim de um longo dia de trabalho. Ou como deitar o corpo molhado e cansado, na toalha de praia, depois de vir do mar. Mas nunca regressei a ti. Era-me permitido visitar-te, a ti, a minha casa – mas nunca ficar.
Por vezes, nos dias em que me deixavas pernoitar, quis sair. Nunca te contei mas estar ao teu lado, depois de tanto me empurrares para fora, fazia-me sentir sujo. Acreditei que te podia infectar com os meus melodramas e contaminar a tua vida feliz. Então, sem que reparasses, porque ambos sabemos que nunca te importaste, comecei a recolher a tralha que – inevitavelmente – acabei por levar.
Agora tem sido estranho.
Não espero muito de ti. Tive ambições maiores para o que poderias ser. Tentei que mudasses e esse foi o meu erro. Em vez de aceitar que nunca encontraria a minha casa, escolhi acreditar que, um dia, serias a minha. Estava errado.
Só me comecei a sentir desalojado depois de te conhecer.