sexta-feira, 12 de julho de 2019

inútil


Em retrospectiva, nunca fui muito bom com palavras. Apenas sabia deitá-las, de forma bonita, num papel. Transmitia um sentimento qualquer que sentia, ou não, e isso concretizava-me. Vê-las espalhadas pelas páginas em branco, contornando cada parcela do que eu queria ser, saciava-me uma qualquer sede de intelectualidade que nunca irei possuir.
Mas agora, agora a situação é diferente. Repetidamente as palavras continuam a falhar-me. Se atingi a minha quota-parte, precocemente, não sei dizer. Não sei. Não consigo.
Faltam-me as palavras. Faltam-me os pontos finais.
O que sei, é que já senti isto. Isto, isto que sinto neste momento. Vezes de mais. E consegui, sempre, escapar através dos parágrafos que jogava fora – parágrafos tão descartáveis quanto eu. No entanto, ultimamente não o tenho feito.
Aqui estou eu: descartável, secundário, segunda opção.
Repito estas palavras, na minha cabeça, uma e outra vez. Incapaz de as transmitir, de passa-las para o papel. Não sou capaz. Já não consigo. Até isso perdi…


quarta-feira, 3 de julho de 2019

is this it?


Trouxe comigo – debaixo do braço, pesada e como se não me custasse – a tua falta de vontade. Tomei-a como minha. Abracei-a como uma amiga que não via há demasiado tempo e, juntos, recordámos histórias antigas.
Falámos sobre a primeira vez que notei no quão insignificante eu te era. Na ufana dor que a lâmina fez ao trespassar a minha barriga. Recontámos as horas que esperei por uma palavra tua, na margem do desespero, engasgado em palavras que não te podia dizer.
Não dei por não te ter. A ânsia de te perder tornou-me um cego precoce. Escolhendo não ver que apenas me procuravas nas horas vagas. Preferindo não notar que só era teu quando te dava jeito.
E, depois de todo este tempo, de uma forma doentiamente egoísta, a indiferença é tudo o que me resta de ti.
Olha só. Vê bem no que me tornaste.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

febre


Do que passámos, só nós sabemos. E já nem eu sei de tudo.
Foi inocente. E, se quiser ser mesmo sincero, doentio. Começou de forma simples. E hoje, que já não é mais, não consigo dizer por que razão o foi. Mas sei dizer-te que fervia perto de ti. Eras uma febre que, por mais palavras que conheça, não consigo caracterizar.
Consumias-me. Violentamente. Delicadamente.
Questiono-me, muitas vezes, sobre o que fomos. E como isso nos fez o que hoje somos. Sem toda a dor que nos causámos, estaríamos aqui? Seriamos isto? É tão pouco o que sei sobre o irascível “E se?” que deixámos em aberto.
Ainda fervo, sabes?

segunda-feira, 6 de maio de 2019

tudo está bem.


Pouco sabia eu.
Naquele dia – em que o sol fustigava os meus ombros, em meados de Setembro – a minha vida iria imutar-se irreparavelmente. Não antecipei, confesso, encontrar-te. Mas assim foi.
Não dei importância, a princípio. No meio de todas as pessoas em meu redor, eras apenas mais alguém. Mais alguém, pensei eu. E pouco sabia eu. No final daquele ano, já eu seria mais teu que meu.
Mais teu. Menos meu.
Tem sido sempre assim, desde então. Tudo em meu redor, tem a tua presença. Mesmo quando estás ao meu lado; Mesmo quando não estás. E desde então não sei, ao certo, como agir quando te encontro fora do meu alcance.
Todos os dias são uma batalha. Todos. Mas há dias, dias como o de hoje, em que te sinto longe de mim. Como se fosses inalcançável. E são dias como os de hoje, em que não consigo controlar a falta que me fazes, que me fazem dar valor ao que encontrei quando te encontrei.
Pouco sabia eu. Naquele dia, sem estar à espera, encontrei-te. E desde então, tudo está bem.
Mesmo quando dói. Mesmo quando dói…


quinta-feira, 2 de maio de 2019

notice me


Não há meio-termo em mim. Ou escrevo porque me encontro lastimavelmente vivo ou, então, não escrevo de todo. E compreendo, agora, que isso não é necessariamente mau. Antes ausência de sentir que a dor de o fazer.
Mesmo que isso me doa ainda mais…

sexta-feira, 5 de abril de 2019


Esgotam-me. Empoleirados em mim e pesando-me nas costas.
Estou cansado. Tão cansado.

quinta-feira, 7 de março de 2019

in-sen-sí-vel


Sempre me ensinei a enfrentar a dor – não fugir dela.
Olhar nos olhos do que me faz mal até criar a imunidade necessária para seguir em frente. Tem sido assim, desde que me lembro. E oportunamente contar-te-ei sobre as vezes que me deixei cair só para ver se me conseguia levantar.
Mas agora, agora que pouco tenho para te dizer, resta-me expor-te o meu último segredo.
Tu, a quem escrevo todas as minhas palavras; de quem sinto falta todos os dias; que me manchou o casaco cinza com aquele cheiro penetrante, não existes.
As minhas palavras são sem destinatário. Sempre foram.
E tu, que as leste como se cada letra fosse uma bala para o teu peito, eras alguém que me ouviu quando o resto do mundo estava surdo para mim.
A dor, eu sinto-a. Sinto-a e continuo. E de tanto a enfrentar, de tanto sentir, acabei por ficar assim. Entorpecido.
Por tua causa.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

guess I did it to myself

Vi, ontem, na cara de outra pessoa, o que vi na tua há muito tempo atrás. 
Naquele dia. 
No dia em que te perdi. 
E que tanto doeu. 
Como se estivesse a reviver tudo outra vez. 
Abri, repetidamente, na pele, os golpes que fiz quando o desespero tomou conta de mim. Senti, novamente, a garganta fechar-se e impedir o ar de entrar. Enfraqueci e deixei de ver, afogado em lágrimas que não caíam há inúmeros meses. 
Assusta-me a forma como me vou abaixo, sabes?
E só foram precisas duas frases. Duas. Cada palavra, aglomerada num murro certeiro, que me fez desabar. 
- Cada vez menos te compreendo, disseste. 
- Imagino que seja difícil e lamento, respondi.
Se eu pudesse era diferente. Juro. E eu tento. Tenho tentado a minha vida toda. Já fui tantas versões de mim mesmo que não sei quem ser. Mas continuo a tentar. Por ti, especialmente por ti. Mas quando vejo que te causo desconforto, desmorono. 
Devias compreender-me melhor que ninguém. E já nem tu o consegues. Já nem tu consegues…
Sabes o que vejo? Sabes a que me sabe este déjà vu? O meu futuro. O meu maior medo avançando mais um pouco. Como uma sombra que vai escurecendo tudo em meu redor. É inevitável, eu sei. Mas preferia que, embora sozinho, ficasses comigo.
No entanto, e pelo menos sabendo isto sobre mim, se o que sou afecta negativamente os teus dias, está na hora de partir. Para longe. 
Como fiz há muito tempo atrás. 
Naquele dia. 
No dia em que te perdi.
E vai doer. 
Mas, pelo menos, sei que estás melhor – e só isso me interessa.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

cru


Pouco é mais real que isto – sou uma ilha.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

atordoado


Antes de mais, nada devo acrescentar sobre o ar que roubaste de dentro de mim. Foi-se e nada restou. No entanto, sobre mim, que sem fôlego vivo a meio-gás, apraz-me dizer que a vida, embora sem sabor, não tem magoado. Tem sido. Na mesma maneira de sempre. Como um vácuo ao qual não consigo escapar ou sentir.
Tirando isso, tirando o facto da ausência de qualquer contentamento, tudo está bem.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

lost souls

Na verdade, não sei onde fiquei. Deixei-me ir e não houve retorno.
Fiquei contigo. Lá, onde ficámos. Dizias que a vida te doía e eu também. Mas menos contigo, menos comigo – quando eu era eu. E por isso, fiquei. Algures, perdido, contigo, nesse sítio em que a dor nos magoava menos.
Mas entre tantos “tantos” foste embora. Eu não. E como não sei de ti, nunca mais soube de mim.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

thoughts

E eu – que perdi palavras pelo caminho, em frases que nunca verbalizei e textos que não publiquei – tinha tanto para te dizer.
Joguei-as fora. Gastei-as, irremediavelmente, no corpo de outras pessoas.
Mas, ainda assim, mudo de sentimentos, penso em ti – venha quem vier.
Espero que o saibas.

sábado, 8 de dezembro de 2018

o que ficou por dizer.


Foi de um dia para o outro, não foi? Todo o potencial, toda a ideia, todo o sonho – no chão. Podíamos ter sido tanto. Podíamos. Mas não somos mais.
Naquele dia, embora tudo estivesse igual, algo mudou.
Não quis mais saber do que sentias. Não quis pôr os teus sentimentos em primeiro lugar. Não quis pensar na tua reação. E pela primeira vez em um ano, esgotei a paciência que retiravas. Pedaço a pedaço.
Foi como se tivesses despejado todos os teus demónios e exigências, em mim. E, sem querer, fizeste com que deixasse de ver tudo o que me fez gostar de ti em primeiro lugar. Não foi o esperado. E se fosse como devia ser, estaríamos juntos. Mas tudo o que és, choca no que sou.
E, quando decidi ditar o fim, atingimos o final num embate mortífero.
Agora consigo respirar, sabes? Agora que me levantei, que já não tenho o peso do que és nos meus ombros, consigo saborear o paladar do oxigénio que me faltou nos últimos tempos. Os dias preenchidos pelo teu vazio são agora cheios. Cheios mas leves. Como deveriam ser.
Pode parecer inesperado mas, na verdade, era uma questão de tempo.
Tinhas razão, agora consigo vê-lo. Só eu não quis ver. Considerei ser medo de cair. Mas a verdade é que nunca saíste do chão, não foi? Os erros de outro ainda te estão marcados na pele. Perene numa constante dúvida que destrói o que de bom há na tua vida.
Quero que saibas que lutei. Não sou fácil ou perfeito mas quis sempre ser melhor por ti. E embora tu penses que não, lutei. Mas não te consegui curar ou espantar os teus fantasmas. Eu tentei. Tentei com tudo. Mas no fim, perdi por desistência.
Já passaram duas semanas e o ar carregado de ti, da tua essência, copiada por aí, provoca-me náuseas. Fiquei a saber de atitudes tuas que, com deveras tristeza, me deram a razão necessária para saber que tinha feito o correto.
Desviaste-te de uma bala, disseram-me. E deste então não te consegui defender mais.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Portanto, em resposta ao que me perguntas incansavelmente, repetindo horas a fio as questões que não te deixam dormir, às vezes, quando não sei o que dizer e sinto falta do tão doce rasgar na pele, digo o teu nome.
E isso chega-me para sentir.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

ii

São coisas. Pedaços que ficaram caídos pelo caminho. Sem nome, sem forma. Coisas. Metafóricas e reais. Coisas que deixei na tua casa, no teu quarto, no teu corpo. Nunca mais as vi. Não sei delas. Nem as quis guardar. Entreguei-tas, sem que me tivesses pedido, e virei-te costas. Hábitos antigos demoram a morrer, certo?
Parece que o meu hábito mais antigo é fugir.
Desculpa, ou assim
27.08

terça-feira, 4 de setembro de 2018

sideeffects

Cicatrizei-te em mim para que nunca me deixasses.
E nem assim resultou...
30.08

terça-feira, 28 de agosto de 2018

"Não quero nada sério."

Foi naquele dia.
O sol punha-se atrás de uma colina qualquer. A brisa era quente e vaga. A lua desvendava-se em tons de laranja. Não havia som. Tudo era silêncio.
E tu.
Nem eu sabia. Mas foi naquele dia.
As tuas costas arqueavam. A tua respiração era ofegante. Os vidros iam embaciando em segredo. Não havia mais nada. Tudo era nós.
E eu.
Eu não sabia. Mas foi naquele dia que destruí uma pessoa pela primeira vez.
O teu sorriso substituído por olhos afogados. A tua gargalhada trocada por porquês. O som do teu coração a cair-me aos pés. Não havia como prever. Tudo era simples.
Menos para ti.
Como poderias compreender? Não sou de ninguém, nem mesmo meu.
E tu? Tu foste dano colateral do que sou.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

kingoftheclouds


Não é segredo. Em mim, é sempre triste. Em tudo o que sou, em tudo o que faço – em cada pessoa que toco.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Soldier On. VII


Todos os anos se repete.

Procuro palavras para te entregar, para te mostrar que não te esqueci. E, todos os anos, te entrego palavras verdadeiras – pouco bonitas – de uma dor desmascarada. São cópias de sentimentos que colei a cuspo para te entregar. Pouco sei se elas te alcançam. Mas eu tento. Tento e volto a tentar que elas cheguem a ti, aí, de onde te encontras.

Posso dizer-te que hoje já consigo existir no teu lugar. Em paz. Como havias de gostar. Sem correr atrás do ar que me tenta fugir dos pulmões sempre que tropeço num pedaço de ti.

Dói menos. Muito menos. Fui perdendo a dor que és no labirinto que sou. E isso é bom. Deixei de perseguir fantasmas para perseguir a vida que idealizaste para mim. Tento sempre que tenhas orgulho de mim. Em todas as minhas atitudes, sempre.

Mas sei que nem sempre consigo ser o que esperaste de mim

Ambos sabemos que já não sei sentir. Nem escrever, aparentemente. Ou talvez, se quiser ser mesmo verdadeiro, apenas já não saiba escrever sobre ti. Não sei. Mas sei que me fazes falta. Muita, muita falta. Independentemente de o sentir ou não.

E só espero que isso seja suficiente para ti, avô.

domingo, 15 de julho de 2018

devia ir.


Estamos a perder-nos.
Cada vez mais longe um do outro. Ouvindo e cuspindo acusações. Magoando propositadamente sem remorso. O que é isto? Quem somos nós se tudo o que nos caracteriza deixou de existir?
Talvez estejamos a arrastar o inevitável com medo de nunca mais encontrar algo como isto. Ou talvez não haja uma razão aparente para nos causa tanta dor expecto a do sentir. E eu consigo sentir. Mais um passo para trás. Depois de outro e mais outro. Sinto-os. Tu não?
Quando te perder, o que será de mim? Não sou nada sem ti. Como podes não vê-lo? Como?