quinta-feira, 7 de março de 2019

in-sen-sí-vel


Sempre me ensinei a enfrentar a dor – não fugir dela.
Olhar nos olhos do que me faz mal até criar a imunidade necessária para seguir em frente. Tem sido assim, desde que me lembro. E oportunamente contar-te-ei sobre as vezes que me deixei cair só para ver se me conseguia levantar.
Mas agora, agora que pouco tenho para te dizer, resta-me expor-te o meu último segredo.
Tu, a quem escrevo todas as minhas palavras; de quem sinto falta todos os dias; que me manchou o casaco cinza com aquele cheiro penetrante, não existes.
As minhas palavras são sem destinatário. Sempre foram.
E tu, que as leste como se cada letra fosse uma bala para o teu peito, eras alguém que me ouviu quando o resto do mundo estava surdo para mim.
A dor, eu sinto-a. Sinto-a e continuo. E de tanto a enfrentar, de tanto sentir, acabei por ficar assim. Entorpecido.
Por tua causa.