Todos os anos se repete.
Procuro palavras para te
entregar, para te mostrar que não te esqueci. E, todos os anos, te entrego
palavras verdadeiras – pouco bonitas – de uma dor desmascarada. São cópias de
sentimentos que colei a cuspo para te entregar. Pouco sei se elas te alcançam.
Mas eu tento. Tento e volto a tentar que elas cheguem a ti, aí, de onde te
encontras.
Posso dizer-te que hoje já
consigo existir no teu lugar. Em paz. Como havias de gostar. Sem correr atrás
do ar que me tenta fugir dos pulmões sempre que tropeço num pedaço de ti.
Dói menos. Muito menos. Fui
perdendo a dor que és no labirinto que sou. E isso é bom. Deixei de perseguir
fantasmas para perseguir a vida que idealizaste para mim. Tento sempre que
tenhas orgulho de mim. Em todas as minhas atitudes, sempre.
Mas sei que nem sempre consigo
ser o que esperaste de mim
Ambos sabemos que já não sei
sentir. Nem escrever, aparentemente. Ou talvez, se quiser ser mesmo verdadeiro,
apenas já não saiba escrever sobre ti. Não sei. Mas sei que me fazes falta.
Muita, muita falta. Independentemente de o sentir ou não.
E só espero que isso seja
suficiente para ti, avô.