- Continuas a perder-me.
A
tua voz não tremeu quando o disseste.
O
quarto estava escuro. Conseguia sentir-te deitada, no teu lado da cama, ambos
vestidos, fixando sem ver. O silêncio era quebrado apenas pela tua
respiração. Estava frio – tem estado frio.
-
Quem te disse que quero que fiques?
Olhaste
para mim. Mesmo sem te ver, conseguia saber a tua linha de pensamento. Demasiado
composta para elevar a voz, procuravas a pergunta certeira para me magoar da
mesma forma que eu tinha acabado de o fazer.
Demoraste.
-
O que queres, então?
Rancorosa.
Eras sempre sublime na forma em que atacavas a minha insegurança. Apenas eu
saberia. Apenas nós. Se ainda fossemos nós.
-
Não sei.
Esta
era a verdade. Eu não sabia o que fazer comigo mesmo. A ridícula ideia de
partilhar uma vida a dois nunca tinha estado nos meus planos. Mas eu nunca to
escondi. Aliás a nossa primeira discussão tinha sido precisamente porque um dia
te confidenciei que o meu objetivo de vida era não precisar de ninguém. E após
todo este tempo, ainda aqui estávamos. Eu sem saber o que ser. Tu julgando-me
pelo que não sou.
-
Não sabes?
Cuspiste
mais uma vez. Desta vez a tua voz tremeu. Estavas num ponto de rutura. E eu
não te podia culpar. Sem forças para mais qualquer coisa e sem qualquer vontade
de dar continuidade àquela luta, soltei um:
-
Não.
Sem
aviso, levantaste-te, dirigiste-te a mim e bateste a tua mão na minha cara. Violenta.
Seca.
-
És um cobarde! – Disseste. Ainda serena. Ainda composta.
Não
respondi. Não reagi. A verdade é que aquela atitude tinha sido o gesto mais
surpreendente de toda esta história que ambos estragámos. E quase que to quis
dizer. Mas não. Permaneci em silêncio. Sabia que ias quebrar. Tu só querias uma reação. Eu só queria que te calasses.
-
Pois. Mas eu sei o que quero. E não é isto. – Continuaste perante a minha indiferença.
-
Então porque ficas? – Xeque, pensei. Tudo isto era um jogo que eu estava
prestes a vencer. Sem qualquer prémio ou louvor.
Ficaste
em silêncio. Não teres resposta custava-te. Pior ainda era saberes o quão
dolorosa seria a resposta que estavas prestes a dar.
-
Não sei. – Sussurraste. Derrotada. Patética.
Não
sei até que ponto nos destruímos. Nem compreendo porque o continuamos a fazer. Mas
aquele era o fim. Um fim.
-
Então diz-me: Qual de nós é o maior cobarde?
Xeque-mate.