terça-feira, 2 de janeiro de 2018

2. (calor)



Está frio.
Em vez de me tapar, deixo a manta espalhada pelo chão do meu quarto e, de dentro do mesmo, não ouço o vento que já fora ruge. Por algum motivo, acabo sempre por escrever quando faz mais frio embora eu nem sinta as mãos. “Mãos frias, coração quente.”, certo? Então que dizer de mim mesmo quando nem as sinto?
O eco da música que embate contra as paredes, adormece-me os sentidos. E tudo o que me dói, eu deixo ser sugado pelo buraco que habita no meu peito.
Nestes dias de frio, dou por mim a imaginar-te. Ou melhor, obrigo-me a imaginar-te – não sei mais recordar-te. Tento contar cada sorriso, cada sonho, cada palavra jogada fora numa qualquer folha amarrotada, cada lágrima que engoli a custo.
Levanto-me e abro a janela.
Afinal nem está frio lá fora. Está sol, está calor. O frio sou eu. Só em mim há tempestades. E tem feito muito frio desde que me esqueci de sentir.