Está
frio.
Em
vez de me tapar, deixo a manta espalhada pelo chão do meu quarto e, de dentro
do mesmo, não ouço o vento que já fora ruge. Por algum motivo, acabo sempre por
escrever quando faz mais frio embora eu nem sinta as mãos. “Mãos frias, coração
quente.”, certo? Então que dizer de mim mesmo quando nem as sinto?
O
eco da música que embate contra as paredes, adormece-me os sentidos. E tudo o
que me dói, eu deixo ser sugado pelo buraco que habita no meu peito.
Nestes
dias de frio, dou por mim a imaginar-te. Ou melhor, obrigo-me a imaginar-te –
não sei mais recordar-te. Tento contar cada sorriso, cada sonho, cada palavra
jogada fora numa qualquer folha amarrotada, cada lágrima que engoli a custo.
Levanto-me
e abro a janela.
Afinal
nem está frio lá fora. Está sol, está calor. O frio sou eu. Só em mim há
tempestades. E tem feito muito frio desde que me esqueci de sentir.