sábado, 28 de outubro de 2017

hostage



As palavras que gastei contigo sempre penderam para a dor que me causas e eu habituei-me a este desequilíbrio. E por mais palavras que junte, não consigo articular algo coerente que explique isto.

Tu desapareces. Ocupas os teus dias com outras pessoas. Vives como se tentasses esquecer o buraco que tens no coração – como se tentasses disfarçar o monstro que és. E eu fico quieto, no meu canto, sofrendo sem dizê-lo em voz alta. Também ocupo o meu dia com outras pessoas. No entanto, vivo a meio gás. Tento chamar por ti. Aguardo pelo teu nome no ecrã do meu telemóvel e mostro-me disponível para ti – sempre, independentemente do que me rodeie.  

Sou um refém. Tu voltas e finges que nunca foste a lado algum. Ou que a culpa foi minha porque não insisti. Afinal o monstro sou eu e o buraco está no meu peito. Afinal a culpa é minha. Mas como? Diz-me.

As tuas palavras atingem-me como uma mão fria, batendo fortemente na minha face. Nada dói mais que elas. Desculpa. Quem sou eu para dizer-te que não, certo? Não tenho nada nem ninguém, ao contrário de ti que tens o mundo aos teus pés.

Sou eu quem precisa de ti. Mas és tu quem precisa de mim quando não tem mais ninguém. E a facilidade com que me usas deixa-me sem palavras.

Já não sei o que somos. Fazes-me acreditar que cada palavra que escrevi foi um erro. E por isso, nunca te conseguirei perdoar.