Algo
cru e real – pensei para mim – escreve algo verdadeiro. Algo que não se esconda
atrás de palavras bonitas. Algo que quase ninguém saiba de ti e que guardes nas
muralhas que ergueste em teu redor. E nada é menos bonito que tu e os teus
hábitos asquerosos. Engraçado não é? Retirei, sem reparar, das palavras “cru” e
“real” o quão cruel me tornaste.
Sabes
do que me lembro particularmente? Do teu hálito a whiskey. O constante odor a
desprezo que hoje tanto desprezo. Inundando o ar que inocentemente respirava.
Não achas triste que esta seja a minha maior recordação de ti? Sempre presente.
Naquele
dia em que impedi a mãe de sair pela porta porque descobriu que a tinhas
traído. Quantos anos tinha eu, sabes? Embora não haja uma idade ideal para bloquear
a porta aos gritos e impedir que a tua mãe saia de casa, eu era demasiadamente
novo.
Numa
noite em que no meio de uma discussão acesa, tu a empurraste contra um sofá
singular e ela caiu de costas no chão. Ainda hoje não sei como se pode fazer
algo tão imundo a alguém com quem partilhamos um teto, uma família – uma vida.
Até
naqueles pequenos momentos de esplanada em que o teu ego era o personagem principal
(não vamos fingir que não o é em todas as situações) e tu te gabavas – à minha
frente – das facadinhas que davas na
tua mulher. Eu era uma criança, sim, mas nunca fui estúpido. O teu ego é tão
grande que não compreendes que em situação alguma isso é motivo de orgulho?
Whiskey.
A tua desculpa para uma série de lacunas na tua vida: memória, inteligência, o
amor da tua família.
Hoje
não sei bem quem és mas sei que não te quero conhecer. Sei que não aprendes com
os erros, repetes e repetes como uma medalha de honra que insistes a usar acima
da tua barriga saliente, e sei que a minha mãe não é forte o suficiente para
sair da prisão em que a meteste.
Desde
cedo fugiste com a minha infância. As lágrimas de todos aqueles momentos ainda
estão cicatrizadas na minha cara. E foste tu quem as cortou na minha face.
E nada é mais cru e real que isso.