sábado, 9 de janeiro de 2016

haunting



São só paredes. O que antes me assustava, hoje falha-me. Não me protegem. Não são um escudo ou uma camada mais resistente de pele. São cimento. Pó. Quase que as imagino como se fossem as cinzas de tudo o que perdi. Já não impedem os gritos, já não me trazem o silêncio de outrora. Mas, apesar disso, elas nunca falham em relembrar-me do quão sozinho estou. Assistiram a tanta dor que a retribuem em eco.

E eu ouço e ouço. Deixei de falar. Deixei de falar porque falar significa dizer que te perdi e ainda não estou preparado para acreditar nisso – o doce sabor da negação sempre correu forte nas minhas veias. Cristalizou em mim que sempre sorriu perante a dor. E não há parede que impeça isso. Não há parede que me proteja da tua ausência. Aliás, só a intensifica. Para onde ir? Não estás em lado algum. Talvez deva entupir estas paredes com gemidos de alguém que não tu. Talvez deva fazê-lo e assim tu desistas de mim. Mas infelizmente, já se passaram muitos gemidos sem que nada mudasse realmente. Apenas a dor continua.

Estas paredes continuam a ser só paredes e a tua ausência continua por preencher. Admito que sem ti não sei onde fica a minha casa e me sinto perdido. E tu ainda és o meu mapa.