Como explicar? Não dá para explicar.
Quem olha de fora, vê uma família, um lugar para dormir e muitas pessoas
distribuindo sorrisos. Ao ver isto é quase impossível acreditar que falte algo.
Mas não é essa a verdade.
Há pessoas que passam por pior. Pessoas
que sentem dores físicas na pele, que não têm o que comer ou onde dormir. Pessoas
que foram abandonadas pelo mundo e que só querem ter alguém do seu lado.
Mas como posso fazer entender que
ninguém sente da mesma forma?
Eu não tenho uma família, tenho
agregado familiar; eu tenho um lugar para dormir mas não tenho uma casa; eu não
distribuo só sorrisos, dou o que esperam de mim.
Não gosto de mim. Nem da minha aparência,
nem da minha mentalidade. Acho-me insuficiente, sinto-me sempre aquém das
espectativas e preferia não existir. Falam mal de mim e as pessoas acreditam no que lhes é dito. Faço mal a mim mesmo, tanto física como
psicologicamente, tenho secretos ataques de ansiedade e de pânico dos quais não
sei se vou conseguir sobreviver, e choro todas as noites.
Já pensei em terminar com a minha
vida e só não o faço por culpa.
Mas como pode ser isso importante se
tantas outras pessoas vivem de pior forma?
Que sei eu de tristeza? Que sei eu
de chorar durante horas seguidas porque não tenho ninguém enquanto corto a
minha perna? Que sei eu sobre não conseguir respirar a meio da noite, de cabeça
entre as pernas, tentando-me acalmar porque não tenho motivos para sorrir? Nada.
Perdi tudo. Das pessoas mais
importantes da minha vida só me restam duas. E eu penso sobre isso. Penso que
as vou perder. Penso que quando esse dia chegar não vou ter qualquer motivo
para viver. Penso que a solidão é algo que não suporto. Penso que todos têm
algo menos eu. E penso, mais uma vez, em acabar com tudo e desistir – fazer um favor a todos e morrer de vez.
Mas que sei eu? Pessoas morrem à
fome. Pessoas são violadas e molestadas. Pessoas morrem de frio. Pessoas perdem
familiares diariamente.
Eu não sou uma dessas pessoas.
A minha tristeza é imaginação. A minha
solidão é um drama. Os meus cortes são manias.
Ando é a ver muitos filmes.