A nossa ligação era como num espelho
rachado cuja greta tentávamos ignorar. Tu sabias de cor cada centímetro da
minha pele e reconhecias cada canto do meu labirinto, até aqueles que eu não
tinha coragem de enfrentar. E eu fazia-te perguntas mesmo antes de tu saberes
que estavas em dúvida e levava o teu mapa guardado no bolso para o caso de te
perderes
Eras a pessoa que melhor me
conhecia.
Mas tu desististe de mim. Tu – a pessoa
que mais se assemelhava a mim. E desde então não sou mais que um caco. Não consigo
reunir forças para compreender onde me deixei cair e ficar. Encontro marcas no
meu corpo e pergunto-me porque foram feitas por outra pessoa que não tu. Isso custa,
sabes? Quando era teu, era só teu. E agora que sou de tanta gente e que me
escondo dentro de outras pessoas, sinto que sou apenas. Não há mais ninguém.
Isto tem sido difícil. Muito. Mas eu
continuo a tentar. Tento acreditar que nada de bom viria de nós os dois. Tento pensar
que se te deixei ir é porque não havia razão para ficares. Mas lá no fundo – na
pequena alma que me resta – eu sei que ao desistires de mim, desististe de ti
também.
E essa, essa é a pior parte de
todas.