sexta-feira, 21 de novembro de 2014

diz-me



Não sei como eras com outras pessoas. E, sinceramente, não tenho vontade de o saber. Mas sei que comigo o teu orgulho atingia grandes proporções. Nós discutíamos pouco. Regra geral quando fazias algo que eu não gostava eu demonstrava-te e dizia-to. Nunca ficava chateado, nunca. Sentia uma espécie de perda mas não admitia. A negação era forte na nossa relação. Sempre o foi. Mas não ficava chateado, ficava magoado. Passava-me sempre rápido porque um dia disseste-me que eu não sabia perdoar e admito que foi das coisas que mais me custou ouvir na vida.

No entanto, quando tu não gostavas de algo, as coisas eram bem diferentes.

Agora que penso nisto deve ser assim com muitos casais. A verdade é que nunca passei por isto com outra pessoa porque, simplesmente, elas nunca foram interessantes o suficiente para que eu me importasse com opiniões ou sentimentos alheios. Portanto foi tudo muito novo para mim. Quando eu deixava de falar com alguém era porque não queria mais conversas com aquela pessoa e porque já tinha o que queria. Quando eu tinha uma opinião eu dizia-a por muito que doesse e não me importava com mais nada. Quando eu confiava era de forma absoluta. Mas tu nunca foste assim.

Eu tinha que interpretar os teus silêncios e inevitavelmente controlar o receio de que tivesses perdido o interesse em mim. Eu tinha que adivinhar que opinião tinhas guardado e puxá-la a ferros. E – principalmente – tinha que confiar pelos dois. Isto deixava-me furioso mas, como sempre, eu deixava passar porque não queria ser infantil e ficar chateado com a tua maneira de ser. Assim sendo era sempre eu a dar o primeiro passo.

Lembraste de quando estávamos no meu quarto, quando vinhas passar os fins-de-semana comigo, e te chateavas comigo? Eu agarrava-te por trás, bem forte, apesar de não fazeres qualquer tentativa de fugir, e dizia: - Diz-me.

Lembro-me de te agarrar e cheirar-te o cabelo. Nunca gostei tanto de um cheiro. Antes de perguntar já sabia que ia encontrar o teu silêncio e não me importava. Acho que também tu, secretamente, gostavas do que se ia passar depois e mantinhas a tua pequena birra. Os meus lábios encontravam o teu pescoço, como gravidade, e eu sentia o quão instantaneamente arrepiada tu ficavas.

Eu não desistia. Tu não impedias.

Depois quando não aguentavas mais, viravas-te para mim e dizias: - Parvo., antes de entrelaçares as pernas à minha cintura e me dares um beijo. Eu sorria e perguntava-te novamente. Tu desvalorizavas a situação e dizias que já tinha passado e tudo voltava ao normal. Um beijo atrás do outro que levavam a um encaixe já familiar. Era sempre assim. Mas já não é.

Hoje lembrei-me disto. Lembrei-me de que já não vou dar mais passo nenhum. E senti outra vez aquela sensação de perda que sentia quando fazias algo que não gostava. A diferença é que hoje não o nego. Doeu.