Lembro-me
sempre das horas que passávamos a falar ao telefone. Todos os dias. Lembro-me
de que quando não estávamos juntos substituíamos o contacto físico pela voz um
do outro e chegava-nos. Se o meu dia estivesse mau, tu conseguias melhorá-lo e
vice-versa. Lembro-me dessas horas com carinho. E melancolia. Melancolia porque
essas horas já não existem. Tanto falámos que agora não falamos de todo. Os dias
passam sem ouvir falar de ti ou sem falar contigo. Ainda me espanta esta minha
capacidade em me deixar afectar por estas situações. Devia estar habituado a
isto – devia – mas teimo em queimar os dedos com este tipo de pessoas. Então quando
teimo em recordar a queimadura lembro-me das horas que passávamos a falar ao telefone.
E sabes o pior de tudo? Já nem me lembro do som da tua voz…