Não
é estranho? Não me lembro da última vez que me senti verdadeiramente feliz.
Recordo momentos, isso é certo, mas esses foram há tempo demais para serem
verdadeiros. São agora memórias e eu aprendi a custo que as melhores
recordações são as que mais doem. Isto tornou-se uma rotina. Mesmo quando dou o
meu mais genuíno sorriso, sinto que me estou a enganar. A dor vive em mim como
um monstro que se apodera a qualquer momento. É uma teia que prende e
contamina. Um buraco negro que suga a força que me resta para caminhar. Se uma
vez disse que, embora ninguém o soubesse, havia dias em que desejava não
acordar, isso agora tornou-se uma constante. Ainda ninguém sabe, claro, mas já
nem consigo dormir. O sono tornou-se um sonho e quando o alcanço, sinto-me a sufocar.
Não sei dormir. Não sei estar acordado. Existo, de forma habitualmente
miserável mas não vivo. Nem sei que nome dar ao que faço no dia-a-dia. Tão
depressa vislumbro a negação como de repente me encontro no chão da casa de
banho a chorar às escondidas (quebrando antigas promessas).
Tenho
muitas dúvidas, sabes? Acho que sempre soube que ficaria assim. Só que agora
que o sou, não sei como manter esta peculiaridade que habita em conjunto com o
vazio do meu peito. E pior que isso, nunca pensei que chegasse o dia em que não
soubesse como acabar um texto por falta de palavras. Não tenho nada nem
ninguém. Mas isso é simples de perceber – se nem eu sou meu amigo, porque haveria
as outras pessoas de o ser?