Tudo
o que guardei encontra-se baço. Não consigo ver os detalhes que alojei com
tanto cuidado. Recordo-os mas não os sinto mais. E quando acordo com um
vislumbre desses tempos, eu sinto-me vazio por estender a mão e não conseguir
agarrar algo que pensei garantido. Tento, tento muito, e não consigo ver. Tudo se
encontra desfocado – as imagens tão antigas que são a preto e branco, os
cheiros adocicados agora resíduos no mofo, as gargalhadas cada vez mais surdas,
etc. Embora eu saiba que te perdi dá-me, por vezes, uma ponta de saudade
inexplicável. Durante muito tempo eu não fui capaz de entender esta minha
capacidade de sentir falta de algo que me fez tanto mal, no entanto, vejo agora
a razão. Eu sinto saudades. Não de ti – não, tu já não existes – mas de todos
os momentos que me deixaste para guardar. Essa é a única razão por ficar assim,
querer reviver aqueles momentos em que ainda não conhecia o gume afiado nas
costas. E sim, associo-te a essas memórias mas isso não quer dizer que esteja
triste por tua causa. Eu posso não conseguir ver como antes mas nunca me
esquecerei. Nunca.- 28.02.13